Ex-dirigente da Infraero dispara contra mudança na estatal

Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Fundador do PT e sindicalista ligado aos aeronautas, o ex-superintendente da Infraero no Rio de Janeiro Pedro Azambuja, exonerado na onda de demissões que ceifou o poder dos partidos da base do governo, caiu atirando. Numa carta enviada a amigos e companheiros que participavam sexta-feira da reunião do Diretório Nacional do PT, em Brasília, Azambuja criticou a omissão do governo e de seu próprio partido diante da ofensiva militar no controle da empresa e da aviação civil.

Sem meias palavras ele afirma depois de cinco anos e meio atuando no coração da administração aeroportuária que a Aeronáutica reforçou o serviço de inteligência com arapongas egressos da comunidade de informações para assumir o controle total do setor. Segundo Azambuja, em abril, depois de mudar o estatuto da Infraero sob o mais alto segredo o presidente da empresa, brigadeiro Cleonilson Nicácio Silva, e os demais conselheiros ( todos eles militares ) retiraram do presidente Lula o direito conferido nas urnas de indicar quatro das seis diretorias, sob o controverso argumento de que estariam privilegiando a carreira.

O que pode parecer aos menos avisados valorização dos funcionários da casa, não passa de fortalecimento do poder dos militares afirma.

Azambuja explica que todos os nomes supostamente escolhidos por critérios técnicos são egressos de uma época em que não havia concurso público e quem dava as cartas na estatal eram os militares.

Está mais do que na hora de abrir a caixa preta da aviação civil, totalmente em mãos dos militares. A aviação comercial banca a festa de todo sistema, inclusive parte da aviação militar diz o ex-superintendente.

As demissões que retiraram, segundo ele, cerca de 200 cargos, inverteu o empreguismo, privilegiando a casta dos quartéis:

Os militares é que estão pendurados neste cabide confortável, desde sempre.

Para fazer frente à militarização, ele sugere que o PT cerre fileiras para rediscutir um novo marco regulatório para o setor, dentro do novo Código Brasileiro da Aeronáutica, e enfrente o que chamou de forte lobby dos militares no Congresso.

Minha proposta ao partido é separar a aviação civil da militar, como é atualmente no mundo inteiro diz ele.

Azambuja lembra que a presença militar é tão escancarada que o novo estatuto no qual o brigadeiro Nicácio Silva se amparou para fazer as demissões trata o comando da Aeronáutica como Ministério (extinto com a criação do Ministério da Defesa) e a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) como Departamento de Aviação Civil (DAC), que também não existe mais.

Taxas

Dirigente do setor de transporte do partido, Pedro Azambuja diz que, além do controle ideológico, das vagas do mercado e da carreira, a Aeronáutica quer manter o comando total do setor também porque depende do dinheiro originário das taxas aeroportuárias, das quais, segundo ele, 40% são destinados à área militar. Azambuja diz que foi demitido num contexto de pretensa limpeza e no melhor estilo de estratégia militar, amparada em informações de um grupo de arapongas que se institucionalizou na empresa com o pomposo nome de Superintendência de Inteligência Empresarial todos eles empregados através dos mesmos contratos especiais suprimidos dos partidos.

O pior é que a limpeza começou pelos funcionários de carreira com humilhantes transferências e redução de salários diz. Hoje eu não voltaria mais ao cargo por causa da militarização. O comando da Aeronáutica é o verdadeiro dono dos aeroportos, inclusive dos privados.

Frisa que não critica a empresa porque perdeu o emprego:

Tenho documentos apontando que fiz essa discussão por dentro, tanto no partido quanto no governo, e na empresa sustenta.

Azambuja reclama, ainda, do fato de nenhum parlamentar do partido ter saído em defesa dos cargos do PT na Infraero: Nos nivelaram ao já famoso fisiologismo do PMDB .