Berzoini prevê governo Dilma à esquerda, PT busca aliados

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BRASÍLIA - Um eventual governo do PT a partir de 2011 daria uma guinada mais à esquerda e alinharia a atuação do Banco Central aos interesses do governo, afirmou à Reuters o presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP).

O parlamentar garante, entretanto, que uma possível administração da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), pré-candidata à sucessão petista, não faria 'aventuras' e manteria os fundamentos econômicos seguidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para Berzoini, o comando do Banco Central na nova gestão precisaria estar alinhado aos desejos do Palácio do Planalto.

- O Copom pode ter sempre seu debate técnico, que é o debate essencial para discutir política monetária, mas ele tem que casar esse debate com a vontade do governo federal, a vontade do Poder Executivo - disse.

Desde a adoção do regime de metas de inflação, o Banco Central tem atuado com independência operacional, apesar de não ter autonomia institucional.

Na linha da menor ortodoxia, o presidente do PT também defendeu um regime de metas de inflação mais flexível, focando as bandas e sem uma 'preocupação excessiva' com o seu centro.

Além disso, afirmou que a definição do superávit primário precisa levar em conta a manutenção do endividamento público no patamar atual, hoje em 37,6 por cento do Produto Interno Bruto.

- A dívida interna não precisa se reduzida além de um terço do PIB.

Berzoini compara a trajetória da economia brasileira à travessia de um transatlântico. De acordo com a metáfora, Lula evitou dar um 'cavalo-de-pau' para não partir ao meio o transatlântico no início de seu governo e optou por um 'choque de credibilidade'.

Dilma, por outro lado, poderá aproveitar as bases definidas pelo presidente Lula e a confiança do mercado para dar uma guinada maior na embarcação.

- O governo Lula produziu os resultados suficientes para permitir que a curva do navio seja, não só continuada, mas mais acentuada. A curva do navio não precisa ser necessariamente ideológica, é uma curva de metas - destacou.

O respaldo também viria da própria crise financeira internacional, que resgatou o debate sobre a maior presença do Estado na economia.

Ex-ministro da Previdência e do Trabalho, Ricardo Berzoini não será presidente do PT quando a corrida eleitoral tiver sua largada oficial. Tradicionalmente em sintonia com o pensamento majoritário do governo e do partido, o deputado pode integrar a coordenação da campanha em 2010.

Com 1,35 milhão de filiados, o PT tem eleições internas em novembro e o candidato mais cotado para assumir a direção é Gilberto Carvalho, chefe de gabinete da Presidência da República. Em segundo mandato, Berzoini não pode concorrer novamente.

Alianças ou isolamento

Em meio a dificuldades para compor parcerias locais em prol da disputa nacional, Berzoini alerta que as candidaturas próprias nos Estados são 'secundárias' na composição política exigida nas negociações para a sucessão presidencial.

- Óbvio que nem tudo pode ser atendido, mas algumas questões terão de ser atendidas para se chegar a um acordo (com os aliados). Ou, então, é o caminho do isolamento - alertou.

Hoje, a coligação de apoio ao governo é composta por 14 partidos, mas sem garantia de adesão à candidatura presidencial.

Para ele, o PMDB não virá inteiro para o lado do PT ou da oposição, mas o objetivo é concretizar uma chapa formal com a legenda. O tempo de televisão a que cada candidato tem direito depende da coligação nacional firmada por partidos.

Ministra forte do governo, Dilma Rousseff tem pela frente uma forte adversidade que influenciará seu futuro como candidata: a compatibilização de sua campanha com o tratamento de um câncer no sistema linfático.

Lula X Serra

A petista também enfrentará um nome muito bem cotado nas pesquisas de opinião. Enquanto o governador José Serra, pré-candidato do PSDB, tem até 47 por cento das intenções de voto para ocupar a Presidência, Dilma varia entre 11 a 16 por cento.

A estratégia do PT em relação ao adversário, já vencido em 2002, será a da comparação entre as administrações de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Lula, informa Berzoini. Trata-se da mesma linha de ataque realizada contra o então candidato Geraldo Alckmin (PSDB) em 2006.