produtores querem impedir multas ao desmatamento ilegal

Liliana Lavoratti, JB Online

SÃO PAULO - Num momento da história econômica em que a presença do Estado é reivindicada e até mesmo a meca do capitalismo os Estados Unidos sinaliza a necessidade de adoção urgente de mecanismos globais para reduzir a depredação da natureza, os ruralistas brasileiros querem desregulamentar o setor.

Reunindo a maior bancada informal no Congresso Nacional, os produtores rurais, apoiados pelo ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, fazem campanha para alterar o Código Florestal até o final deste ano. Pela legislação atual, quem não recompôs as reservas legais ou desmatou acima dos limites autorizados, será multado a partir de novembro próximo, com base no decreto 6.514, de 22 de julho de 2008, que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais e penaliza com multas diárias de até R$ 500 por hectare quem planta ou cria animais em áreas de reserva legal. Por pressão do setor, o governo adiou as sanções por 14 meses.

O tema começou a ser discutido no Senado na última sexta-feira e nesta semana a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e a Sociedade Rural Brasileira (SRB) entregarão aos deputados e senadores ligados ao setor mais uma proposta de alteração do Código Florestal a 34ª apresentada aos congressistas nos últimos tempos.

Conforme Stephanes, a aplicação total e à risca de todas as restrições previstas no conjunto da legislação atual torna 77% do território nacional não utilizável para fins de produção agrícola e pecuária. E cerca de 1 milhão das 6 milhões de propriedades rurais existentes em todo o País ficariam inviáveis economicamente. A afirmação é baseada em estudo recente do pesquisador Evaristo de Miranda, da Embrapa Monitoramento por Satélite subordinada ao Ministério da Agricultura. Pelo levantamento, no bioma Amazônia, por exemplo, 93% das terras ficariam impedidas de utilização.

A saída pregada é reformular o Código Florestal, elaborado em 1965, que prevê as áreas de reserva legal (nascentes e beiras de rios, encostas, vegetação fixadora de dunas), em outros dispositivos.

É uma falsa dicotomia contrapor o desenvolvimento agrícola à preservação ambiental. O Brasil já viu esse filme que não levou a nada, a não ser a um certo atraso afirma o diretor da organização não governamental SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani.

Segundo ele, o ministro da Agricultura está fazendo o papel de terrorista de Estado ao propagar a falta de alimentos se os agricultores tiverem de abandonar sua atividade e migrar para as cidades se os limites de desmatamento não forem ampliados.

Anistia para ilegalidade

Um dos objetivos imediatos dessa movimentação é anistiar os produtores rurais que não seguiram as normas para a recomposição as reservas legais, fixadas na lei nacional de política agrícola (número 8.171, de 1991). Fruto de amplo acordo feito na época, ficou estabelecido que as reservas legais seriam recuperadas em trinta anos, à base de 1/30 ao ano, até zerar tudo em 2022 afirma Mantovani.

Em decorrência, quase dois terços das reservas deveriam estar recompostas hoje, mas os dados mostram que isso não aconteceu, enfatiza Mantovani.

Além de descumprirem a legislação pactuada por eles mesmos, os ruralistas agora tentam induzir também os pequenos produtores a se rebelar contra as normas garantidoras do meio ambiente como um espaço da coletividade critica Mantovani.

Segundo o dirigente da ONG, um retrocesso na regulamentação ambiental brasileira seguramente terá repercussão negativa para o País nas negociações no âmbito da renovação do Protocolo de Kyoto, no âmbito da Organização das Nações Unidas (Onu), para redução das emissões de gases de efeito estuda. Um novo acordo poderá resultar de conferência marcada para o segundo semestre deste ano.

Os ambientalistas prometem muito barulho contra as mudanças que começam a ser discutidas no Congresso.

O respeito aos recursos naturais é um caminho sem volta. Setores industriais que até pouco tempo resistiam a essa realidade estão acordando, como uma parte dos produtores de cana-de-açúcar, pois sabem que a questão ambiental fecha mercado. Está se dando bem quem percebe isso e agrega valor ao seu produto adotando tecnologias limpas e cuidando da natureza para garantir os serviços ambientais essenciais à vida no planeta, como o abastecimento de água, o controle de pragas e doenças argumenta Mantovani. O setor de celulose, exemplifica, já tem cerca de 4,5 milhões de reflorestamentos, o equivalente às plantações de eucaliptos.

Ao contrário dos argumentos dos produtores rurais, o Brasil é um dos países do mundo que proporcionalmente mais têm áreas disponíveis para atividades agropecuárias, assegura o professor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Núcleo de Economia Socioambiental, economista José Eli da Veiga.

A conta é bem simples e pode ser feita com os próprios resultados dos cálculos apresentados pela Embrapa. Quando excluídos os ecossistemas com aptidões florestais, e não agropecuárias, fica bem claro que a disponibilidade de terras é superior a 65% afirma.

Segundo Eli, isso só ocorre em 25 países com minúsculos territórios, jamais em países com dimensões comparáveis ao Brasil.