Exército organiza busca de corpos

Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - O ministro da Defesa, Nelson Jobim, se rendeu aos apelos das entidades de direitos humanos e à decisão da Justiça Federal e mandou publicar no Diário Oficial da União portaria criando um grupo de trabalho coordenado pelo comandante do Exército, general Enzo Peri, que usará metodologia adequada e os recursos logísticos necessários para localização, recolhimento e identificação dos corpos dos guerrilheiros e militares mortos no episódio conhecido como Guerrilha do Araguaia .

Farão parte do grupo o Exército, representantes dos governos do Pará e do Distrito Federal e observadores independentes a serem convidados por Jobim. A composição e o planejamento detalhado deverão ser entregues ao ministro no próximo dia 15, quando se encerra o prazo estabelecido na portaria publicada na última quinta-feira. O grupo fará buscas na região do Araguaia e terá carta branca para dar uma resposta, dentro de um ano, aos familiares de 59 guerrilheiros, um militar e cerca de 20 camponeses, desaparecidos na região durante o período do conflito, 1972 e 1975. Jobim pede ao comandante do Exército que informe através de relatórios trimestrais o andamento das investigações.

É a primeira vez que o governo envolve o comando do Exército num plano de buscas e inclui a expressão militar ao lado de guerrilheiros desaparecidos no Araguaia. Segundo relatórios e publicações de oficiais que participaram do conflito, o único militar desaparecido na região é o soldado Francisco Valdir de Paula, cujo sumiço é um mistério de 36 anos. As estimativas extra-oficiais apontam 16 baixas nas Forças Armadas _ cujos corpos foram resgatados e entregues aos familiares. Um dos integrantes da rede de espionagem infiltrada na região da guerrilha durante a Operação Sucuri que asfixiou a guerrilha , o soldado desapareceu no dia 24 de julho de 1973, depois de avisar amigos que iria tomar banho num rio próximo a propriedade de fachada que ele administrava em Xambioá.

A presença do Exército na coordenação da operação tem a finalidade de envolver o segmento militar que mais participou da repressão ao conflito. A guerrilha não só foi descoberta por oficiais do Centro de Informações do Exército (CEIX), como também, no final do confronto, em 1974, foi exterminada por uma tropa de 750 homens da força, especializada em combates de selva, dividida em três operações.

Embora não se conheça ainda o plano de resgate dos desaparecidos, Jobim deve dar liberdade ao comandante do Exército para tomar as providências necessárias à localização e identificação dos guerrilheiros, requisitando inclusive documentos que possam estar de posse de outras instâncias das Forças Armadas ou de comissões criadas pelo governo para tratar do tema. Além de um enorme acervo de documentos recolhidos há mais de uma década, a Comissão de Mortos e Desaparecidos, vinculada à Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) mantém em um armário do anexo do Ministério da Justiça dez ossadas recolhidas na região do conflito e que podem pertencer a guerrilheiros dados como desaparecidos.

A iniciativa responde à decisão da juiza federal Solange Salgado, de Brasília, que mandou o governo executar a sentença em que determina a localização dos corpos e abertura dos arquivos da repressão. Expedida em 2005, a sentença transitou em julgado em 2007, tornando-se definitiva e irrecorrível. É também uma tentativa de evitar um desgaste internacional, uma vez que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA abriu processo contra o Brasil por violação aos direitos dos familiares dos guerrilheiros, que reivindicam os corpos na justiça desde 1982.