David Uip: Não tem como o vírus não chegar ao Brasil

Raphael Bruno, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Considerado um dos principais infectologistas do Brasil, o ex-diretor do Instituto do Coração (Incor), ex-clínico particular de Mário Covas e atual diretor do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, onde está internado um dos pacientes suspeitos de contaminação pela gripe suína e outros oito monitorados pelo Ministério da Saúde, David Uip, 56 anos, admitiu, em entrevista ao JB que, a esta altura, considera improvável que o vírus não chegue ao país. Para o médico, o importante é que o Brasil esteja preparado para quando isso acontecer.

O governo brasileiro está apostando no medicamento Tamiflu para deter uma eventual expansão da gripe suína no país. Quão eficiente é o remédio contra a doença?

Teoricamente, é o medicamento mais eficiente, pois ele age na enzima responsável pela duplicação do vírus.

E como o senhor avalia o conjunto das medidas tomadas pelo governo até o momento?

Acredito que as medidas estão adequadas. O governo brasileiro está se preparando para este tipo de situação há um bom tempo. Primeiro, com a síndrome do desconforto respiratório e depois, mais recentemente, com a gripe aviária. Os dois casos fizeram com que o governo se preparasse para hoje.

O que mais preocupa hoje?

Os medicamentos de combate à gripe devem ser prescritos por médicos. Se o pessoal, como está acontecendo, começar a comprar o remédio para se prevenir, mesmo sem suspeitas de contágio, estocar medicamentos para se garantir, corremos o risco de criar uma resistência aos agentes que combatem o vírus. Ou então de lidarmos com dificuldades de oferta, porque a indústria pode não conseguir produzir tanto, e no futuro, se a situação se agravar, pacientes que de fato precisem do medicamento encontrarão dificuldade para consegui-lo.

O governo federal anunciou que já está monitorando 36 pessoas. É possível saber se o vírus chegará mesmo ao país?

Eu diria que não tem como o vírus não chegar ao Brasil. Ele está se espalhando por todo o mundo, por que pouparia o Brasil? Temos é que estar prontos para quando ele chegar aqui. E acho que estamos.

E se os casos suspeitos forem confirmados e a doença se expandir pelo país, o que deve ser feito?

Estamos trabalhando na base de protocolos. Estamos estruturados para lidar com a situação. Na medida em que a situação for evoluindo, vamos hierarquizando as medidas que devem ser tomadas, no que diz respeito a transferência de pacientes, ampliação de leitos. O limite da ação, e esse é o problema, é que não se sabe o tamanho da encrenca.