PSDB faz de aniversário do Real palanque para 2010

Liliana Lavoratti, Jornal do Brasil

SÃO PAULO - Do jeito que a coisa anda, talvez no vigésimo aniversário do Real teremos de explicar que não foi o presidente Lula, mas sim o presidente Fernando Henrique Cardoso quem fez o plano . A afirmação, feita nesta terça-feira pelo economista Gustavo Franco, no seminário promovido pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio) 15 Anos de Plano Real, resume o tom do discurso dos tucanos, que defenderam sua autoria na criação das condições para o bom desempenho da economia brasileira nos cinco primeiros anos do governo atual.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi ainda mais longe, ao afirmar que o Plano Real é do Itamar Franco , pois, segundo ele, os brasileiros não teriam conhecido a estabilidade da moeda e outros tantos benefícios decorrentes do programa se o então presidente da República não tivesse a coragem de assumir as mudanças propostas . Bem-humorado e diante de uma platéia de centenas de empresários e políticos, o ex-presidente tucano reconheceu, entretanto, os avanços promovidos pelo governo petista.

A César o que é de César. O Brasil está melhor e vai continuar melhorando. Lula recebeu um país em condições melhores do que aquele entregue a mim por Itamar e espero recebê-lo de volta em situação ainda melhor ressaltou FHC diante de uma platéia de centenas de empresários e políticos.

Após relatos bem humorados sobre passagens pitorescas do Plano Real, o ex-presidente tucano voltou a acusar o atual governo de permitir que cupins corroam a política brasileira, numa comparação da ação dos insetos na máquina pública federal que ele considera partidarizada. Mais uma vez, FHC disse que o presidente Lula está passando a mão na cabeça de quem faz a coisa errada .

A corrupção existe em todos os governos, mas eu nunca me compadeci dela acrescentou o ex-presidente.

Citando Lula diretamente, FHC disse que o presidente está dando passos para trás ao não separar interesses partidários do interesse público.

Ao ser indagado por um cidadão presente ao evento qual seria o inseticida para combater os cupins que o ex-presidente afirma estarem tomando conta da máquina pública, FHC respondeu: o inseticida vai depender do voto popular .

Penitência

Provocado a dizer se na oposição o PSDB ficou sem discurso pelo fato de o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ter dado continuidade à política macroeconômica adotada no Plano Real, FHC saiu pela tangente. Enfatizou que a Carta aos Brasileiros, divulgada durante a corrida presidencial de 2002, foi o ato de penitência do PT, dizendo que não ia fazer nada do que sempre pregou , referindo-se ao documento divulgado no final da campanha, no qual Lula indicava a manutenção dos pilares da política econômica do governo tucano.

Assim como temos vergonha da escravidão, nós, brasileiros, queremos esconder que houve megainflação no Brasil disse Gustavo Franco, que integrou a equipe de FHC no Ministério da Fazenda e presidiu o Banco Central durante o período em que a moeda nacional tinha paridade com o dólar. Vamos parar de subterfúgios, parece que sempre vivemos na normalidade. Não dá para esquecer o passado.

Se para a geração dos pais do Plano Real o desafio era eliminar a inflação alta, agora, dizem, a preocupação deve ser tirar do Brasil a pecha de país campeão dos juros. De acordo com Franco, a razão da Selic nas alturas é a mesma que fazia os índices de preços dispararem no passado: o déficit público, apesar da reorganização e dos limites impostos por várias ações, entre elas a Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada em 2000. Segundo Franco, assim como o Brasil, antes do Real, não conhecia a inflação na casa de um dígito, agora, com a crise global, é provável que os brasileiros conheçam uma taxa de juros também no mesmo patamar de um dígito.

É uma razão para festejar, mas pena que isso tenha sido consequência da crise e não de uma estratégia alfinetou o economista.