Status atrai cada vez mais mulheres ao crime, diz Anistia

Agência Brasil

AGÊNCIA BRASIL - O envolvimento entre as mulheres e o tráfico de drogas tem levado a cada ano mais mulheres às prisões, segundo o relatório 'Por trás do Silêncio: Experiência de Mulheres com a Violência Urbana no Brasil', divulgado pela Anistia Internacional. Elaborado por meio de visitas a periferias de seis cidades brasileiras, o estudo constatou que muitas optam pelo crime para sustentar a família e ficar perto dos filhos. Outras, porém, buscam status e acesso a bens materiais.

Relator da Anistia Internacional para o Brasil, Tim Cahill afirma que a relação das mulheres com o tráfico não deve ser vista apenas no âmbito da segurança pública, pois é preciso haver mudanças de ordem cultural. Segundo ele, por trás do envolvimento com a criminalidade, muitas vezes, estão mulheres vítimas de estigmas, que enfrentam, inclusive, o sexismo dentro do crime.

- Para os homens que vivem em espaços onde lhes é negada a auto-estima, o crime é uma realidade, mas claramente para as mulheres, que têm chances de melhorar a qualidade de vida - o que pessoas em situações mais confortáveis não aceitam e não entendem. Isso não é uma justificativa, mas um entendimento para compreender porque tantos jovens optam por essa forma muitas vezes violenta e perigosa de melhorar sua condição social - afirmou.

Discriminação no crime

Cahill lembra que, mesmo dentro de organizações criminosas, mulheres também são vítimas da discriminação.

- O machismo é muitas vezes ignorado ou diminuído por ser uma questão cultural, mas é uma questão que os movimentos sociais não dão conta de mudar e exige uma educação.... A violência tanto da parte da polícia quanto do tráfico só reproduz a mesma discriminação que a sociedade produz - disse.

A coordenadora da organização não-governamental Crioula, Jurema Werncek, que trabalha com mulheres vítimas de violência no Rio, também reforça a tese da baixa auto-estima e da inferiorização pelo machismo como motivo para ingresso no crime.

- Todo mundo sabe que as mulheres ligadas ao tráfico gozam de um certo prestígio. Na verdade, uma versão distorcida de prestígio, mas que elas não conseguiriam sendo faveladas, negras, com baixo nível de escolaridade e sem emprego - ressaltou.