Para segurar a alta do câmbio, BC 'gastou' US$ 61 bilhões

Ayr Aliski, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - As intervenções do Banco Central (BC), na tentativa de segurar a alta do câmbio, já somaram US$ 61 bilhões desde setembro de 2008. Do total, US$ 14,3 bilhões foram aplicados em vendas de dólares no mercado à vista, atingindo as reservas internacionais. Os US$ 46,7 bilhões restantes referem-se a operações que não geram impactos sobre as reservas: US$ 7,4 bilhões foram liberados ao mercado em leilões de dólares com obrigação de recompra; US$ 6 bilhões em leilões para dar crédito ao comércio exterior e mais US$ 33,3 bilhões em operações de swap cambial (que funciona como uma injeção temporária de dólares no mercado).

Os números foram apresentados nesta segunda-feira pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, em Brasília. No mercado interno, destacou, a estratégia para resolver o problema do enxugamento de crédito foi utilizar os depósitos compulsórios, ação que já liberou R$ 99,2 bilhões até o fim do mês passado. Antes da chegada da crise, os compulsórios somavam R$ 259,4 bi.

O Brasil não precisou usar recursos públicos para injetar liquidez no mercado disse.

Antes da crise, a oferta de crédito no mercado brasileiro era de US$ 757 bilhões. As linhas que mais sofreram restrições foram as de crédito doméstico com funding externo (US$ 47 bilhões) e a de crédito externo direto (US$ 90 bilhões). O crédito doméstico com recursos externos, que havia chegado a US$ 47 bilhões em junho de 2008, caiu para US$ 38,7 bilhões em dezembro.

Substituição de crédito

Foi para suprir o enxugamento de crédito em moeda estrangeira que o BC lançou instrumentos com o uso das reservas. Ainda no ano passado foram lançados os empréstimos para financiar Adiantamentos de Contratos de Câmbio (ACCs). Com o mesmo objetivo o BC começa a liberar no próximo dia 27 recursos das reservas para ajudar empresas brasileiras com dívidas no exterior, onde deve aplicar US$ 36 bi. A operação vai contar com a intermediação de bancos comerciais.

Na atual etapa estamos substituindo crédito internacional. A segunda etapa é que, com a normalização, o preço do crédito caia disse o presidente do BC.

Meirelles insistiu que a situação do crédito no país está voltando à normalidade. Ainda assim, os dados apresentados nesta segunda mostraram um quadro de fracas operações. A média diária de contratações de ACCs foi de US$ 111 milhões no período entre 19 e 23 de janeiro. Na semana entre 15 e 19 de setembro, ou seja, data da quebra do Lehman Brothers, que marca a explosão da crise financeira internacional, a média de ACCs foi de US$ 186 milhões.

No mercado interno, as concessões do crédito livre de janeiro está repetindo o período inicial da crise, em setembro. Considerando o índice 100 como referência para as concessões diárias em setembro, o início de janeiro registrou patamar de 101,1, conforme dados apresentados pelo presidente do BC.

Ficou claro que o atual momento é das instituições financeiras oficiais. Os bancos públicos aumentaram em 12,9% o saldo das operações de crédito entre setembro e dezembro, enquanto que os bancos estrangeiros ampliaram 4,5% e os bancos privados nacionais apenas 2,5%.

Os bancos públicos estão liderando a recuperação do crédito disse o presidente.

Apesar das intervenções diretas no mercado de câmbio, o total das reservas fechou janeiro na marca de US$ 200,8 bilhões. Em agosto, antes do início da crise, as reservas eram de aproximadamente US$ 205 bilhões. As operações de empréstimo inclusive engordam as reservas, gerando remuneração adicional.

Além disso, em agosto do ano passado o BC tinha posição de US$ 21,9 bilhões em swap reverso, o que conta como uma posição comprada de moeda estrangeira no mercado futuro. A apresentação de Meirelles foi realizada durante a abertura do IV Encontro de Lideranças realizado pelo Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea) e Conselhos Regionais do setor (CREA). O presidente do BC destacou que falta pouco para o pacote de incentivo à construção civil ser anunciado.