Polícia Federal abre as portas para cubanos

Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Adversários ferrenhos nos anos de chumbo, os órgãos de inteligência do Brasil e de Cuba estão se aproximando e vão celebrar nos próximos dias um histórico acordo de cooperação. A Polícia Federal, que antes fichava os brasileiros que iam fazer curso de guerrilha nas terras de Fidel Castro, decidiu agora abrir a Academia Nacional de Polícia, em Brasília, para policiais cubanos. O primeiro grupo deverá vir ao país ainda no primeiro semestre e passará quatro meses na academia aprendendo as mesmas técnicas destinadas a agentes e delegados federais brasileiros.

O acordo seria celebrado na próxima terça-feira em Havana, numa reunião entre o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, mas acabou sendo adiado por alterações na agenda de autoridades cubanas e também por causa da polêmica gerada em torno da concessão de asilo político ao ativista italiano Cesare Battisti.

A iniciativa do acordo, segundo fontes da Polícia Federal, partiu da ministra da Justiça cubana, Maria Esther González, e faz parte da abertura iniciada no país pelo governo de Raul Castro. A parceria, além disso, cai como uma luva ao governo brasileiro e funciona como resposta a uma das preocupações da diplomacia: a de que a Venezuela do presidente Hugo Chávez se torne o principal protagonista do processo de cooperação internacional com Cuba. Embora com foco mais concentrado na política, o país desenvolveu um forte serviço de inteligência e isso pode interessar aos órgãos policiais brasileiros como a PF e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

A reciprocidade, segundo fontes da PF, seria a longa experiência que a Polícia Federal desenvolveu nos últimos anos no combate aos crimes financeiro, lavagem de dinheiro, ao tráfico de drogas e demais atividades ilícitas que sempre acompanham o desenvolvimento dos países que começam a se abrir à democracia. O entendimento começará por algo que tem sido comum à PF: a abertura de sua academia às polícias estrangeiras, como fez no ano passado aos países africanos de língua portuguesa. Cerca de 50 policiais e agentes estrangeiros já participaram do curso de formação policial em Brasília.

Rixa antiga

A aproximação rompe uma velha rixa entre os órgãos de inteligência brasileiros e cubanos, que há pouco mais de duas décadas viviam às turras, um espionando o outro por causa das respectivas ditaduras. Durante o regime militar brasileiro, dezenas de ativistas políticos ligados às organizações que optaram pela luta armada foram cursar guerrilha em Cuba. Um dos principais foi o Movimento de Liberação Popular (Molipo), na época dirigido pelo então ministro da Casa Civil e ex-deputado José Dirceu, o único do chamado grupo de cuba, que escapou com vida da vigilância coordenada pelos órgãos de inteligência da ditadura militar.

Por causa da perseguição, Dirceu se viu obrigado a viver cinco anos clandestino. Com a anistia, em 1979, ele voltou à Cuba e refez a operação plástica que mudou sua fisionomia para transformá-lo em guerrilheiro. O regime militar acusou Cuba de patrocinar, com dinheiro, as tentativas de guerrilha no Brasil. Entre 1968 e 1976, a Polícia Federal funcionava como uma espécie de apêndice dos órgãos de inteligência e repressão, fichando e prendendo ativistas políticos que se opunham ao governo militar, papel que abandonou a partir da redemocratização.

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