Inspiração francesa na reconstrução de Santa Catarina

Bruna Talarico, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Enquanto os 20 mil desabrigados de Blumenau dividiam um Natal solidário graças a doações recebidas de todo o país, comovido com a catástrofe que destruiu a cidade, a arquiteta brasileira radicada na França, Elizabeth de Portzamparc, recebia um chamado do governo de Santa Catarina. Com um grupo de reação já às vias de começar a atuar no projeto de reconstrução de Blumenau, o Estado decidiu que a experiência de Elizabeth responsável pelo controle do nível das águas e de prevenção das enchentes da bacia em Bordeaux, na França era fundamental.

Agora, passado um mês desse primeiro contato, as idéias começam a ficar mais palpáveis e ordenadas. Inspiradas em um projeto que a arquiteta havia desenvolvido para a população carente de Paris, casas modulares de até seis andares, feitas de madeira e metal, de fácil encaixe e baixo custo, estão sendo desenvolvidas para abrigar as vítimas das chuvas de dois meses atrás.

A construção de mini-bairros sustentáveis não demora mais do que 30 dias, uma vez que a zona seja definida e os recursos, encaminhados. Para Elizabeth, o projeto é um sonho. Para os desabrigados e desalojados, também.

O grande desafio é conseguir que o valor final seja compatível com o de uma moradia popular ressalta a arquiteta. Tem que ser tudo muito bem pensado para que os moradores não se sintam cortados da vida cotidiana, do trabalho e da escola, por exemplo. Já existe vontade política e verba para estudos preliminares.

O secretário de Articulação Internacional do Governo de Santa Catarina, Vinicius Lummertz, adianta que a colocação em prática do projeto é uma questão de semanas. O grupo de trabalho formado por urbanistas, arquitetos, engenheiros especializados em geologia e infraestruturas, fluxos, circulação e transportes, ecologia, sociologia e demografia dispõe de recursos estaduais e federais, além de R$ 32 milhões em doações, revela o secretário.

Agora é a parte rápida aposta Lummertz. É um projeto de urbanização e de nova orientação urbanística, porque a antiga orientação foi feita de modo que não previa a saturação do solo causada pelas enchentes. E a presença da Elizabeth (de Portzamparc) é muito positiva, é uma inovação porque os franceses têm muita experiência e dominam esse assunto.

O grupo de trabalho também contará com a presença do ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, arquiteto que fez da cidade referência nacional e internacional em planejamento urbano. De acordo com o arquiteto Paulo Kawahara, um dos representantes do Instituto Jaime Lerner, o governo de Santa Catarina ainda não estabeleceu os parâmetros de atuação do grupo, embora o convite a Lerner tenha sido formalizado.

O secretário de Articulação Nacional, Geraldo Althoff, responsável por coordenar o grupo e as ações de reação do governo catarinense, ressalta que a intenção é de que os 18 órgãos estaduais envolvidos na tarefa atuem em parceria com a iniciativa privada.

De acordo com Elizabeth, a cidade de Blumenau necessita de um replanejamento completo, de caráter preventivo contra novas inundações e deslizamentos de terra. A previsão é de que, depois de dois anos de obras para regular o nível dos rios e reconstituir os terrenos de encostas, além de estudos sociológicos sobre a composição da população, todas as vítimas tenham sido atendidas pelos mini-bairros sustentáveis.

O começo das intervenções deve acontecer em breve: uma reunião com a Cohab está marcada para essa semana, e as primeiras zonas beneficiadas já devem ser determinadas. A faculdade de arquitetura da Universidade Federal de Santa Catarina atuará com uma equipe de pesquisa, e os alunos e professores devem participar ativamente da reconstrução da cidade.

Itajaí também será contemplada pelo grupo de trabalho de reação. A zona portuária, base do comércio internacional de Santa Catarina e um dos pilares da economia da região, ganhará um projeto exclusivo que deve ser divulgado nos próximos meses.

Se bem sucedido, o projeto poderá ser aproveitado por outras localidades que carecem de infra-estrutura habitacional. De acordo com a arquiteta Elizabeth de Portzamparc, além de prover uma moraria digna às vitimas das enchentes e consequentes deslizamentos de terra, as construções modulares de caráter popular podem ajudar outras cidades a evitar e até combater o processo de favelização.

A idéia de reconstruir Blumenau com mini-cidade feita de casas, lojas, de caráter sustentável, pode ser usada em todo o Brasil sustenta Elizabeth. É muito importante despertar o interesse para esse tema porque é uma idéia viável e útil tanto para Blumenau quanto para as carências das grandes cidades. É sim um projeto ambicioso, mas que pode dar muito certo e resolver um grande problema urbano e social.