Entrevista: prefeito de São Bernardo destaca parcerias com oposição

Liliana Lavoratti e Bruno De Vizia, Jornal do Brasil

SÃO PAULO - São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista, tem sua economia fortemente dependente do setor automotivo, que se instalou na cidade a partir da década de 1950. Entretanto, este é o setor mais atingido pela crise econômica, que legou um presente de grego para o prefeito recém-empossado, Luiz Marinho (PT). Berço político do Partido dos Trabalhadores (PT) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a região do ABC é uma das principais atingidas com a desaceleração da indústria automotiva. Dentre as principais missões da gestão de Marinho, está a diversificação da economia do município, conforme ele mesmo avaliou em entrevista concedida em seu gabinete na prefeitura.

Como estão sendo os primeiros dias na cadeira de prefeito?

Estou tomando contato com os problemas e as potencialidades. Uma cidade grande como essa seguramente tem muitos problemas, embora também tenha muitas oportunidades. São Bernardo está situada em um espaço territorial estratégico entre o Porto de Santos e a capital paulista, com possibilidade de conquistar muitos investimentos, particularmente no setor de logística. É evidente que a crise econômica pode atrapalhar um pouco, mas nada intransponível nem que nos impeça de sonhar e continuar um processo de crescimento e desenvolvimento.

Quais os problemas considerados mais graves?

Para 41% da população, saúde é a principal reclamação, seguida por transportes, habitação e segurança. Na saúde, vamos investir na ampliação da rede de atendimento, iniciando pela construção de um hospital geral municipal, já que os dois existentes não atendem emergências.

E como melhorar o trânsito, problema crucial de toda a população da região metropolitana de São Paulo?

Vamos construir terminais para interligar as linhas, o que reduzirá o tempo dos trajetos e o número de ônibus circulando na cidade.

Com que orçamento o senhor conta para realizar tudo isso?

O orçamento geral, considerando as autarquias, soma R$ 2,3 bilhões, e sob administração direta há R$ 1,9 bilhão. Contigenciamos 10% deste total, o equivalente a R$ 190 milhões. É uma medida preventiva para observar como a economia vai se comportar. Nossa cidade tem uma particularidade forte presença da indústria automotiva e é preciso ficar bastante antenado sobre o que está acontecendo com esse setor.

O setor automotivo é o mais afetado pela crise. Como o senhor pretende driblar as dificuldades decorrentes disso?

Sem dúvida as montadoras representam um setor forte da economia da cidade, mas não o único. Temos outras atividades importantes e vamos trabalhar para criar alternativas, como um pólo de logística, que tem potencial para atrair investimentos, incrementar emprego e renda. Também vamos reorganizar a economia da cidade, estimular que as empresas comprem a produção de fornecedores locais e não de fora, incentivar que a região compre da região. Esse conjunto de iniciativas vai fortalecer ainda mais a economia da cidade e região do ABC.

Como o senhor se sente fazendo alianças, como administrador, com o governador José Serra, do PSDB, e com o prefeito Gilberto Kassab, do DEM, os dois principais partidos da oposição ao governo do PT?

Eu e Kassab somos dirigentes de cidades e devemos pensar em nossos problemas, que possuem particularidades, mas no conjunto são bastante comuns. Na capital, aqui, em Guarulhos, Santo André, Diadema, São Caetano, existem problemas comuns que só vão ter solução integrada, como o trânsito. Não adianta eu investir um monte aqui se não tiver o metrô interligando com as demais cidades. O problema do trabalhador daqui, que leva duas horas para chegar no seu emprego na capital, não é um problema só meu, é do Kassab e do Serra também. Se essa articulação regional não acontecer, vai custar caro para todos. O presidente Lula e Serra já demonstraram que isso é possível. Com certeza, em 2010 estaremos em lados opostos disputando o governo federal e o estadual, mas isso não vai inviabilizar a gestão pública. Vamos separar disputa e gestão.

O ABC foi o berço do PT e há vinte anos o partido não governava São Bernardo do Campo. A sua eleição é um retorno aos velhos tempos?

Vamos relatizar isso. O ABC é composto de sete cidades, o PT só não governou ainda São Caetano, as demais o partido já administrou todas. Ficamos fora do governo local de São Bernardo porque, provavelmente, o PT não soube criar as condições para ganhar as eleições. E o grupo que ganhou aqui criou uma rede muito forte de poder e se consolidou. Não foi uma disputa fácil, nós vencemos aqui porque eu planejei muito bem a campanha.