Cresce o número de mulheres que denunciam violência doméstica

Luciana Abade, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - A violência doméstica no Brasil é responsável pela metade dos homicídios das mulheres, que representam o último grau de uma escala de violência conjugal iniciada, na maioria das vezes, com o abuso psicológico. A sociedade está mais atenta a essa realidade e começa a se indignar. Os números registrados pela Central 180, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, evidenciam isso. Entre janeiro a outubro de 2008, foram 216 mil ligações.

Cerca de 92 mil pessoas ligaram para a central querendo saber como agir em casos de violência doméstica e familiar. Essa mesma realidade motivou um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia a estudarem o assunto. Com base nos prontuários médicos dos Hospital das Clínicas de Uberlândia (HCU), fichas de atendimento da Organização Não-Governamental SOS Ação Mulher Família e laudos de perícia de lesões corporais e necropsias do Posto Médico Legal (PML), eles constataram que um terço das mulheres não abandonam os companheiros na esperança de melhorar o relacionamento conjugal.

Segundo as vítimas, as principais causas das agressões foram os vícios, 36,9% e o ciúme, 19,9%. Nos atendimentos do HCU e PML, a maioria dos episódios de violência contra as mulheres foi agressões físicas, enquanto que na ONG SOS Mulher, onde 70% das vítimas encontram-se na faixa etária de 18 a 39 anos, a violência psicológica predominou, 36,2% .Os pesquisadores chamaram a atenção para a invisibilidade que envolve a questão, devido a dificuldade de se falar do assunto tanto por parte das mulheres agredidas quanto por parte dos profissionais.

Apesar da magnitude do problema, é muito raro a violência tornar-se visível explica Marilúcia Garcia, autora do estudo. As mulheres chegam nos hospitais apresentando queixas vagas e, muitas vezes, os exames não apontam resultados alterados. Isso dificulta o diagnóstico porque as usuárias não recebem a orientação adequada e os profissionais de saúde têm receio de enfrentar os desdobramentos posteriores.

Despesas médicas

De acordo com a pesquisadora, aumenta cada vez mais o número de leitos ocupados nos hospitais por mulheres vítimas de agressões. Elas representam para o setor saúde, em um ano de acompanhamento, custos 2,5 vezes maiores do que aquelas que não foram vitimadas. As lesões mais comuns detectadas nos atendimentos do HCU e do PNL são as contusões na cabeça, pescoço e membros superiores. Os casos de internação evidenciam a gravidade da violência, sendo as especialidades da odontologia buco-maxilo-facial, ortopedia e traumatologias as que mais prestam atendimento.

Outro dado do estudo que vale ser destacado é que a maioria das vítimas, 52,6%, não havia terminado o ensino fundamental. Daquelas que se obteve informação sobre a profissão, 41% eram domésticas ou do lar. Os agressores, 97,6% homens, tinham de 20 a 49 anos, 87,8% e, dos casos em que se conseguiu a informação, 57,7% não haviam concluído o primeiro grau. Suas principais profissões eram pedreiros, 14,2%, e motorista, 9,2%.

Para a pesquisadora, a violência verbal e a psicológica também necessitam de uma abordagem tão relevante quanto à fisica:

A agressão verbal é a base de qualquer agressão e precede a violência física. Entretanto esse tipo de violência é banalizado e raramente reconhecido, tornando-se talvez o mais invisível de todos os tipos de violência. E torna-se parte da roina das famílias.