Secovi: déficit habitacional é chaga social

Agência Brasil

SÃO PAULO - Entra ano e sai ano, a faxineira Aurelina de Carvalho sonha em comprar sua casa própria. - Mas não tenho dinheiro para entrada e nem para parcela muito alta - conta ela, que ganha R$ 700 mensais e paga R$ 150 de aluguel em uma casa que divide com a filha, a irmã e dois cunhados no município de Osasco, região metropolitanda de São Paulo.

Pela primeira vez em 15 anos, o déficit habitacional caiu 9,5%, segundo estudo da Fundação Getulio Vargas encomendado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon SP). Apesar da queda,o déficit no país ainda é grave: quase 7,2 milhões de residências são necessárias para eliminar as habitações precárias ou divididas por várias famílias, como é o caso de Aurelina.

- A falta de moradia para os pobres é uma chaga social. No resto do mundo já construíram as casas que deveriam construir, só no Brasil é que os carente ainda precisam de um teto - diz João Crestana, presidente do Sindicato do Setor Imobiliário de São Paulo (Secovi). Segundo o estudo, em 2006, 29,2% do total de domicílios considerados inadequados estavam concentrados na faixa de renda familiar até R$ 1.000. Em 2007, esse percentual passou para 31,1%, com famílias com a mesma renda.

- Infelizmente, as classes mais baixas não foram contempladas com o avanço habitacional - explica Sergio Watanabe, presidente do Sinduscon, entidade que encomendou o estudo. Watanabe destaca que os domícilios inadequados são residências improvisadas, como favelas e cortiços, com condições precárias de moradia. - As famílias com renda de até cinco salários mínimos representam 93% do déficit - diz.

Watanabe comenta que participou das reuniões para criar o Plano Nacional de Habitação, que sugerem diretrizes para o governo criar políticas de moradia. - Além de oferecer oportunidades para essas famílias, o plano manteria o nível de atividade da construção civil, que hoje representa 2,180 milhões postos de trabalho - ressalta.

Para o arquiteto e urbanista do Instituto Pólis, Kazuo Nakano, construir novos imóveis não é a única solução. - É preciso ter iniciativas de reciclagem de prédios antigos em regiões centrais das grandes cidades e aproveitar pequenos terrenos no perímetro urbano: ao invés de fazer apenas grandes construções em áreas maiores, é interessante construir pequenos prédios e casas nestes locais - diz.

De acordo com o especialista, grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Fortaleza, têm muitos prédios abandonados em regiões centrais. - O comércio avança e cria 'desertos' nas cidades, as pessoas deixam de morar e o local fica desabitado à noite - ressalta.

Além dessas medidas, Nakano sugere também a criação de linha de crédito para pessoas como Aurelina. O arquiteto alerta que uma linha de crédito isolada não basta: é fundamental ainda criar um fundo garantidor para as famílias que fiquem inadimplentes. - Estas pessoas estão na linha de risco de não assumir os compromissos para não criar uma bolha imobiliária como nos Estados Unidos, que deram crédito para quem não podia pagar - afirma.