Polícia Federal tenta contornar crise com Abin

Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - O agravamento da crise envolvendo a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) por conta de supostos desvios durante a Operação Satiagraha ameaça entrar no Palácio do Planalto. Entre o material apreendido durante buscas num escritório da agência, no Rio, encontram-se informações estratégicas sobre segurança nacional produzidas pela Abin para abastecer o gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva através do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). O presidente é o principal destinatário do trabalho da Abin.

Além de discos rígidos de computadores, os policiais que na semana passada cumpriram mandados de busca e apreensão nos endereços do delegado Protógenes Queiroz e de agentes da Abin que trabalharam cedidos à Operação Satiagraha, levaram equipamentos de inteligência que se encontrava no interior de um furgão, em Brasília, e uma variedade de documentos que, aparentemente, não têm relação com o suposto vazamento. O material encontra-se na Superintendência da Polícia Federal em São Paulo, lacrado, aguardando a decisão do delegado Amaro Vieira Ferreira.

Triagem

Por enquanto a crise está sendo tratada entre o ministro Jorge Felix, chefe do GSI, e a direção da Polícia Federal. O delegado Roberto Troncon Filho, que responde pela direção geral da PF deu garantias ao general que nenhum documento sigiloso será violado ou desaparecerá. Na conversa com Felix, Troncon disse que a triagem do material terá prioridade e que só permanecerão no órgão os documentos que guardarem alguma relação com o inquérito que apura a quebra do sigilo funcional atribuído a Protógenes.

O delegado ainda sugeriu ao general que mande a São Paulo um homem de sua confiança para acompanhar a análise dos documentos apreendidos. O que não interessar para o inquérito, segundo a PF, voltará o mais rápido possível para a Abin. O levantamento será feito ainda esta semana para tentar atenuar a crise entre os dois órgãos. Além do constrangimento, a devassa numa agência que lida com informações estratégicas quebrou o princípio do sigilo. No escritório da Abin no Rio, e no furgão apreendido em Brasília, haviam documentos, relatórios e anotações sobre operações secretas que a agência desenvolve para produzir informações de interesse do gabinete da presidência da República.

Lacerda

A devassa, autorizada pelo juiz federal Ali Mazloum, de São Paulo, aumentou o abismo entre os dois órgãos, que nem haviam se reconciliado depois das suspeitas mútuas sobre origem e autoria do suposto grampo no telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.

Dirigentes da Abin acham que a excessiva carga Protógenes afasta os holofotes do banqueiro Daniel Dantas, mas tem como objetivo desgastar o diretor afastado do órgão, Paulo Lacerda, que aguarda a conclusão do inquérito do grampo para decidir seu destino. A investigação está centralizada em Brasília e, um mês e meio depois, ainda não apontou de onde partiu ou quem grampeou a conversa entre Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM_-GO), cuja transcrição foi publicada, no final de agosto, pela revista Veja.

Assim que o escândalo ganhou repercussão, o presidente Lula decidiu afastar temporariamente Lacerda e outros três diretores da Abin até a conclusão das investigações. Lacerda despacha atualmente numa sala da Secretaria Nacional Andi-Drogas (Senasp), no Palácio do Planalto e deverá aguardar a conclusão do inquérito policial. O fato de ser delegado de carreira e ter dirigido a Polícia Federal no período mais fértil da corporação no combate à corrupção, colabora para agravar a crise entre os dois órgãos. Foi Lacerda quem pediu ao diretor da PF, Luiz Fernado Corrêa, que Protógenes fosse mantido na chefia da Satiagraha. Depois, já na Abin, autorizou o apoio que o delegado alegou não ter encontrado na PF.