Passagens aéreas subiram 189%, mas valor pode baixar em 2009

Ubirajara Loureiro, Gabriel Costa e Cláudia Dantas, Jornal do Brasil

RIO - Embora alguns males tenham longa vida, não duram para sempre. Este pode ser o consolo para os usuários da ponte aérea Rio-São Paulo, que, nos últimos 12 meses, foram submetidos a aumento de 189% no preço das passagens de avião, exatamente no período em que a inflação brasileira não passou de 6,41%. A esperança dos passageiros é que a Gol e a TAM, dominantes no roteiro, a partir do ano que vem passarão a enfrentar concorrência de empresas dispostas a crescer, enquanto terão que cortar gastos para diminuir os prejuízos que já vêm registrando em seus balanços.

Na ponte, que tem a maior densidade de tráfego aéreo na América Latina está agindo um oligopólio, com duas empresas cobrando tarifas escorchantes. Isto é inaceitável, um absurdo diz Paulo Bittencourt Sampaio, diretor da Multiplan Consultores Aeronáuticos.

A situação, entretanto, talvez não mude com a rapidez desejada pelos usuários, mas já terá modificações no ano que vem, segundo explica Sampaio.

Atualmente, TAM e Gol são detentoras de 89,5% dos slots (movimento de pouso ou decolagem) de Congonhas, que é a alma da ponte aérea, daí a imposição de preços sem concorrência.

Mas as duas atuais gigantes do mercado aéreo brasileiro, que já estão amargando prejuízos nos últimos balanços trimestrais, passarão a enfrentar concorrência crescente em outras rotas da Azul, que está antecipando o início de suas operações no país para 15 de dezembro, e da Webjet, que vem crescendo continuamente. Esta última começou com dois aviões, já está com 11 e tem mais três encomendados. Além disso, seu acionista majoritário é a CVC, maior operadora de turismo da América Latina analisa o especialista:

A situação é curiosa porque as tarifas estão em ascensão num momento de crise, com a demanda doméstica caindo 3,9% em outubro. Mas pode-se prever uma boa virada para 2009, porque a crise da Gol ainda está muito forte. Ela enfrentou uma redução de demanda de 20%. A junção com a Varig não deu resultado também porque nos vôos internacionais ela está com um terço da demanda que teve no ano passado. Estão com baixas taxas de ocupação, considerando seu ponto de equilíbrio analisa Sampaio.

O professor Marco Barbieri, do Nùcleo de Aviação da Universidade de Campinas, como Sampaio, entende que a situação da TAM também é muito delicada, e sem perspectivas de melhora imediata. Isto porque, na tentativa de garantir combustível para o ano que vem, fez operações de compra a futuro comprometendo-se a pagar US$ 105 pelo barril, que hoje está cotado a US$ 60.

A Gol, no segundo trimestre do ano, teve prejuízo de R$ 216,76 milhões, e tudo indica que o próximo balanço, que deverá ser divulgado na próxima sexta-feira, não será bom. Isto porque a empresa tem os mesmos problemas de hedge (comprou combustível no mercado futuro até meados de 2009, apostando que a cotação do barril de petróleo ficaria em torno de

US$ 105.

Sampaio diz que nenhuma das duas empresas vai quebrar, mas prevê que terão mais dificuldades, porque a competição vai aumentar muito.

Quando a competição aumenta numa fase de retração, as companhias que já estão em dificuldades ficarão em situações ainda piores. A própria história da Gol é um exemplo disto: em 2001, quando começou a funcionar, embora só tivesse seis aviões, fez um estrago muito grande no mercado, porque operava com uma tarifa muito baixa. E naquele momento, TAM, Varig, Vasp e Transbrasil estavam em crise financeira aguda. E a Gol, como empresa nova, se aproveitou disto para crescer, enquanto as outras estavam obrigadas a cortar gordura. Nesta linha, no ano que vem, enquanto a TAM e a Gol estiverem tendo que cortar gordura, a Webjet e a Azul vão tentar ganhar mais espaço no mercado analisa o diretor da Multiplan.

É isto que está deixando a Solange Vieira, presidente da Anac, indignada. Ela fala em 189% de aumento na ponte aérea. E por isto quer incentivar a redistribuição de slots em Congonhas para abrir espaço para WEbjet, Trip e Azul.

Isto é inaceitável, um absurdo. Na ponte, que tem a maior densidade de tráfego aéreo na América Latina está oligopolizado, com duas empresas cobrando tarifas escorchantes conclui Sampaio.

Valores de bilhetes são desproporcionais

As dificuldades enfrentadas por algumas das maiores empresas do ramo da aviação refletem em números que assustam na hora de pesquisar preços de passagens aéreas. Os valores chegam a ser desproporcionais, dependendo do horário. Um vôo da ponte aérea Rio-São Paulo, pela companhia Gol, com saída às 18:40 de sexta-feira do Aeroporto Santos Dumont, chega a impressionantes R$ 805,00. Uma passagem da mesma companhia para Buenos Aires, com escala em Guarulhos, com saída às 18:10 do mesmo dia, do Aeroporto Internacional Tom Jobim uma viagem que demora quase quatro horas a mais sai por menos: R$ 684,85.

Para o consumidor, pesquisar os preços por horário pode compensar bastante na hora de comprar uma passagem na ponte aérea. No caso da Gol citado acima, se o passageiro comprar a passagem para o vôo de uma hora antes, às 17:40, paga menos da metade do bilhete mais caro: R$ 349,00. Já a TAM oferece, desde 2006, cinco diferentes perfis de tarifa para cada vôo da ponte aérea, com preços entre R$ 189,50 e R$ 609,50. Para os que pretendem voar pelas opções mais em conta, no entanto, convém comprar a passagem com bastante antecedência. As opções das linhas Promo e Light em diversos horários para a próxima sexta já constavam como esgotadas na tarde desta terça-feira.

Os preços da companhia Ocean Air para a ponte aérea oscilam entre R$ 152,00 e R$ 471,00, embora a empresa ofereça bem menos opções de horários que a Gol ou a TAM.

Transporte rodoviário

As empresas que operam a primeira alternativa para quem precisa deslocar-se entre Rio e São Paulo sem usar a ponte aérea, o transporte rodoviário, sentem de forma imediata os efeitos do aumento das passagens aéreas. Segundo o gerente operacional da 1001, Antônio Carlos Sá, desde que as empresas de aviação começaram a aumentar as tarifas, a companhia registrou um crescimento de 17% no movimento nas linhas Rio-São Paulo.

As vendas da empresa em outros municípios do Estado registraram um aumento ainda maior: cerca de 35% nas linhas que partem de Niterói, Friburgo e Cabro Frio para São Paulo. Com as expectativas de um aumento ainda maior, o Consórcio Novo Rio, por meio da empresa de administração de terminais rodoviários Socicam, investiu US$ 10 milhões em obras de revitalização da rodoviária de mesmo nome, com conclusão prevista para 2009.

Passageiros trocam avião por ônibus

Por ser mais rápido, o avião é, de longe, o transporte preferido, mas o preço recorde das passagens tem afastado vários clientes. É o caso do representante comercial Tarcísio Neves, 55 anos, que freqüenta toda semana a ponte aérea Rio São Paulo. Neves sentiu na pele, e no bolso, o aumento do bilhete aéreo, e vive em busca das promoções oferecidas na internet.

Os preços já estavam altos e continuam. Como viajo toda semana, saio em busca da tarifa diferenciada revelou Neves. Se temos sorte, conseguimos viajar ida e volta por R$ 350. Fora da tarifa diferenciada, o preço chega para mais de R$ 1.000.

O segredo das promoções, conta o executivo, é adaptar-se aos horários diferenciados, em que as companhias praticam os menores preços.

Cada vôo abre uma faixa de passagem mais barata, é preciso pesquisar. E no período do caos aéreo, aprendi que o ônibus pode ser uma excelente opção destacou.

Para Klaus Cruz, gerente de seguros, 33 anos, que também vive na ponte aérea, além de outros destinos como Curitiba e Minas Gerais, sua empresa já aconselhou os funcionários a agendarem as viagens com muita antecedência, de pelo menos três dias.

O objetivo, segundo Cruz, é fazer com que a empresa consegua negociar mais promoções e pacotes com as companhias aéreas, e também possa usufruir das tais tarifas diferenciadas.

Ônibus é alternativa

As companhias aéreas têm perdido clientes para as empresas de ônibus. Essas, por sua vez, têm destinado cada vez mais recursos para embelezar e tornar a viagem de seis horas (trecho Rio São Paulo) ainda mais confortável.

É o exemplo da profissional de marketing Joana Duarte, 26 anos, que resolveu encarar a ponte-rodoviária exatamente por causa do preço salgado da passagem. A portuguesa vive no Brasil há alguns anos, e veio ao Rio para passar férias com uma amiga portuguesa. Optou pelo ônibus para voltar para São Paulo, e gastou apenas R$ 78.

Cotei antecipadamente o preço da passagem aérea nas duas companhias disponíveis, dois meses antes, mas os preços ultrapassaram a casa dos R$ 300. Ficou caro para nós contou Joana, que corria para embarcar para São Paulo com a amiga portuguesa, a arquiteta Ines Moura, também 26 anos.

O motorista de ônibus José Alceu Pinto, 49 anos, afirma que prefere viajar de avião, é muito mais rápido . Mas quando a companhia para a qual trabalha não consegue comprar com antecedência as passagens, e fica de fora das promoções, escolhe o ônibus.