Campanha quer homens no combate à violência contra a mulher

Luciana Abade , Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Em meio às discussões sobre a aplicabilidade da Lei 11.340/06, conhecida como Lei Maria da Penha, e criada para punir com mais rigor a violência doméstica contra as mulheres, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) lançou na última quinta, em Brasília, a campanha nacional "Homens unidos pelo fim da violência contra as Mulheres".

No Brasil, a população feminina é a principal vítima das violências doméstica e sexual, da infância até a terceira idade. Entre agosto de 2006 e julho de 2007, elas representaram 74% das 8.918 notificações do Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes, do Ministério da Saúde.

A sociedade precisa entender que esse não é um problema a ser resolvido entre mulheres argumentou a ministra Nilcéa Freire. A violência contra elas não é causada por um ímpeto, nem pode ser vista como briga de casal. É uma violência sistemática e mostra claramente uma relação de desigualdade, baseada em uma cultura machista.

Pioneirismo brasileiro

A iniciativa é uma resposta do Estado brasileiro à convocação do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, que lançou no início do ano a campanha Unite to End Violence Against Women, chamando os líderes mundiais para aderirem à causa. O Brasil, no entanto, é o primeiro país a colocar no homem o foco do combate à violência.

Desde quinta já está no ar a primeira peça da campanha, um site que pretende coletar a assinatura de milhões de homens. Ao aderirem à campanha, eles se comprometem publicamente a contribuir pela implementação integral da Lei Maria da Penha e pela efetivação de políticas públicas voltadas para o fim da violência contra o gênero feminino. A coleta de assinaturas masculinas se encerra no dia 5 de dezembro, véspera do Dia Nacional de Luta dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres, instituído pela Lei 11.489 de 2007.

Vamos ao Maracanã e onde mais for necessário para buscar o comprometimento dos homens disse Nilcéa. Não basta não fazer, é preciso não admitir que os outros façam.

Para o coordenador da UNAIDS no Brasil, Pedro Chequer, a mudança cultural também deve acontecer entre a população feminina porque pesquisa recente da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostrou que mulheres de diversos países aceitam como normal a agressão do homem em alguns casos, como quando eles são vítimas de traição.

Ainda de acordo com a OMS, pelo menos uma em cada três mulheres em todo o mundo apanham, são violentadas ou forçadas a manter relações sexuais em algum momento de sua vida. Metade das mulheres assassinadas são vítimas do próprio marido ou namorado, seja o ex ou atual.

É preciso acabar com a cultura de achar que assassinato de mulher cometido por parceiro ou ex-parceiro é um crime passional defende Alanna Armitage, do Fundo de População das Nações Unidas no Brasil (Unfpa, sigla em inglês). Esse é assassinato como outro e deve ser tratado com o mesmo rigor.

Online

A Central de Atendimento à Mulher da SEPM, o Ligue 180, registrou 121.891 atendimentos de janeiro a junho deste ano. Um aumento de 107,9% em relação ao mesmo período de 2007, quando foram registradas 58.417 denúncias. A maioria das usuárias do canal de denúncias, 61,5%, afirmaram serem agredidas diariamente, enquanto 17,8% semanalmente. Os agressores são, na maioria, os próprios companheiros (63,9%) que, muitas vezes, são usuários de drogas ou álcool.

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade.
Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Saiba mais