Relembre o seqüestro que durou 101 horas

JB Online

RIO - O seqüestro começou às 13h30 da última segunda-feira, quando inconformado com o término do namoro, Limdemberg Alves, 22 anos, invadiu, armado, o apartamento dos pais da ex-namorada, Eloá Pimentel, 15 anos, em Santo André, no ABC Paulista. Lá estavam Nayara Silva, 15 anos, e dois amigos de Eloá que faziam um trabalho escolar. Os rapazes foram liberados e Nayara libertada no dia seguinte, após ficar 33 horas em cárcere privado.

Lindemberg Alves chegou a fazer disparos pela janela e a combinar a libertação de Eloá, mas após aparecer ao vivo na televisão em uma ligação telefônica, mudou de idéia e disse que se entregaria quando quisesse.

Atendendo a outro pedido de Lindemberg, na quinta-feira o irmão de Heloá, Douglas, e a amiga Nayara, tentaram ajudar na negociação. Douglas chegou a ir até a porta do apartamento, pegou dois cães que estavam no local mas não entrou na residência. Então Nayara Silva, ex-refém, decidiu por conta própria voltar ao cativeiro para tentar mediar o fim do seqüestro.

A decisão da PM de usar uma jovem de 15 anos na negociação causou polêmica. O pai da menina disse que não havia autorizado a ação e representantes do Conselho Tutelar e do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) foram ao local. Segundo o secretário-geral do Condepe, Ariel de Castro Alves, houve uma violação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) na volta de Nayara.

Até o superintendente de futebol do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, tentou, sem sucesso, ajudar na negociação, após Lindemberg pendurar uma camiseta do time na janela do apartamento.

Na sexta-feira, quinto dia de seqüestro, Lindemberg assinalou que se entregaria e libertaria as reféns caso sua integridade física fosse garantida. Segundo a polícia, além da presença do advogado - que levou documento que garantia integridade do cliente - Lindemberg pediu a presença de um promotor público, além da irmã, do cunhado, e da imprensa.

Mais de duas horas após o acordo e sem nenhum sinal de Lindemberg, policiais do Gate se posicionaram ao lado e na entrada do prédio para iniciar a invasão, que segundo a polícia começou depois que Lindemberg atirou contra as vítimas.

Seqüestro termina com vítimas baleadas

Imagens de TV, registradas por volta de 18h10, mostram o momento em que policiais do Gate invadiram o prédio. Logo após os policiais explodirem a porta do apartamento, no segundo andar, vê-se um clarão dentro do apartamento, indicando que o tiro só teria sido disparado após a explosão da porta, e antes da entrada da polícia. Também há a possibilidade ainda de tratar-se de uma pequena bomba, ou reflexo da explosão.

Lindemberg sai algemado e é escoltado por policiais até o carro e levado para delegacia da área. Nayara Silva sai em seguida carregada numa maca, com ferimentos no rosto. A próxima maca traz Eloá: ferida na virilha e na cabeça. As duas são encaminhadas para o Centro Hospitalar Santo André. Eloá chega ao hospital respirando por aparelhos.

Nayara, atingida no rosto, é operada e se recupera bem. Já o tiro que atingiu Eloá, atravessa a cabeaç da vítima até o cerebelo, causando sua morte.

Esplicações

O comandante do Batalhão de Choque, coronel Eduardo Felix de Oliveira, negou qualquer erro na ação policial. Afirmou que o Grupo de Operações Táticas Especiais (Gate) agiu corretamente e que a polícia só invadiu o cativeiro após ouvir o estalido.

- Nós só invadimos porque houve disparo. Caso contrário, a gente não ia invadir. Foi uma invasão tática, explodiram a porta e entraram - disse.

Segundo o coronel, o disparo foi detectado por policiais que ocupavam o apartamento ao lado.

- Não ouvi o tiro, porque estava aqui embaixo, mas policiais que estavam no apartamento ao lado ouviram. Não posso duvidar da palavra de profissionais do Gate, que tem a preservação da vida como prioridade - explicou.

O disparo teria motivado a invasão:

- Poderíamos ter invadido antes, mas esperamos a sinalização dele, que estava agressivo. Ele não não disparou depois que a polícia entrou. A perícia e a investigação é que vão dar todas as respostas e as conclusões às quais devemos chegar - completou.

Segundo o coronel, Lindemberg estava irredutível. O seqüestrador tinha um revólver calibre 32 e no fim da ação, indentificou-se que cinco cartuchos haviam sido deflagrados, afirma a polícia. A possibilidade de as meninas terem sido alvo de tiro dos policiais foi descartada pela corporação.

- O Choque usou armamento não letal - disse.

Segundo o coronel, o comportamento do seqüestrador era inconstante. Nayara Silva chegou a contar contou às autoridades que não foi agredida por Lindembergue, mas que ele batia muito na ex-namorada.

- Ele variava muito. A conversa dele com a gente era inconstante. De vez em quando agressivo ou uma pessoa compreensiva. Ele variou a semana toda. É difícil negociar com quem quer se matar e matar a parceira - concluiu.

Depois do desfecho do seqüestro, o advogado Eduardo Lopes abandonou a defesa de Lindembergue.

- Ele traiu a minha confiança. Ao longo da tarde nos fechamos com ele, no sentido de que nada aconteceria, de que daríamos toda a assistência jurídica - afirmou o advogado.

Segundo Lopes, Lindembergue disse que se entregaria, quando recebeu os documentos com garantias à sua integridade física, mas depois voltou atrás.

- Ele tem dupla personalidade. Ao mesmo tempo que dizia que ia se entregar, retrocedia, dizendo que ia matar a Eloá - contou.