Obesidade da população só cresce e acende sinal vermelho na Saúde

Raphael Bruno, Jornal do Brasil

BRASÍLIA - Enquanto o Ministério da Saúde se esforça para apertar o cerco à produção, comercialização e propaganda de alimentos e bebidas de baixos valores nutricionais e o Congresso Nacional, sob pressão da indústria do setor, engaveta dezenas de projetos de lei relacionados ao assunto. No meio disso tudo, o percentual de brasileiros com excesso de peso disparou nos últimos anos: atinge metade da população masculina e 37,8% da feminina.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, o percentual de homens brasileiros com sobrepeso saltou de 18,6%, em meados da década de 1970, para os alarmantes 49,2% de hoje. Entre as mulheres, no mesmo período, o salto foi de 28,6% para 37,8%. Pelas contas do ministério, são 260 mil mortes no país, anualmente, em decorrência de padrões alimentares inadequados.

Ainda assim, o Ministério da Saúde evita falar em uma epidemia de obesidade. A expressão utilizada é transição nutricional . Em suma, o Brasil estaria deixando de ser um país de desnutridos para se integrar ao resto do mundo desenvolvido como uma nação de gordinhos . Guia alimentar

Desde 2005, o órgão já publicou e distribuiu, por meio de agentes comunitários e equipes do programa Saúde da Família, 530 mil exemplares do Guia Alimentar para a População Brasileira, com recomendações de como manter uma dieta equilibrada e saudável.

Para monitorar melhor a evolução da obesidade no país, foi criado, em 2006, o Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel). Basicamente, um questionário sobre hábitos alimentares realizado anualmente com uma amostra de 54 mil entrevistados de todo o país.

É do Vigitel que o ministério vêm produzindo sua base de dados sobre o problema nos últimos anos. Por meio do último, realizado em 2007, por exemplo, que as equipes do órgão descobriram que o Rio de Janeiro é a segunda capital do país com maior percentual de adultos com excesso de peso (46,7%), atrás apenas de Cuiabá.

Desde 2006, também, que o ministério financia projetos dos municípios relacionados a construção de espaços para a realização de atividades físicas ou direcionados a programas de alimentação saudável, além de promover a Semana de Alimentação Saudável, onde realiza pequenas inserções publicitárias na televisão e rádio com o objetivo de conscientizar a população sobre os riscos de hábitos alimentares irregulares. A coordenadora-geral de Doenças e Agravos Não-Transmissíveis do Ministério da Saúde, Deborah Carvalho, contudo, reclama da falta de recursos para ampliar estes projetos.

É uma concorrência desleal, sem dúvida, com a quantidade de publicidade de produtos inadequados comenta Deborah. Não temos muito dinheiro. Se você faz uma semana de propaganda na grande mídia, acabam os recursos do ano inteiro.

Ao menos por enquanto, as medidas tomadas não foram suficientes para estancar a evolução do problema, principalmente entre os homens e a população mais jovem.

Outra aposta do ministério é o Saúde na Escola, programa desenvolvido em parceria com o Ministério da Educação que prevê estímulos para que escolas municipais aumentem em seus cardápios a oferta de frutas e hortaliças. O programa está atualmente em fase de adesão dos municípios.

Nossa previsão de reversão dessa tendência atual de crescimento do sobrepeso entre a população é algo para cinco anos diz Ana Beatriz Vasconcellos, coordenadora da Política de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde.

A última tentativa do ministério para lidar com o problema foi a instalação, de um fórum de debates com representantes do governo e da indústria alimentícia para discutir a redução dos teores de gordura trans, sal e açúcar dos alimentos.

O que nós queremos é que os alimentos oferecidos à população brasileira sejam de qualidade e que não coloquem em risco a saúde de ninguém comentou o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Mas, para isso, é preciso pactuar com a indústria como isso será possível. Em nenhum país do mundo se fez essa transição do dia para outro.