SP: estoque crítico de sangue cancela transplantes

Portal Terra

ARAÇATUBA - O estoque de sangue atinge níveis críticos e provoca cancelamento de cirurgias no interior de São Paulo, cujos hemocentros fazem campanhas às pressas neste feriadão para recompor as reservas e evitar que pacientes fiquem sem atendimento. Por causa do déficit, dois transplantes de fígado tiveram de ser cancelados em Ribeirão Preto. O Hospital de Clínicas da cidade faz transplantes de fígado há sete anos e nunca houve problemas por falta de sangue.

A situação é mais grave nos hemocentros de Ribeirão Preto, o principal do Estado, que atende 3,8 milhões de pessoas em 187 municípios, e no de São José do Rio Preto, responsável por 102 municípios e 43 hospitais. Os dois decidiram intensificar a campanha de coleta e vão permanecer abertos neste feriadão para atrair doadores.

Um dos fígados seria para o aposentado Antônio Alves Filho, que há três anos esperava pelo transplante. Durante a cirurgia, no Hospital das Clínicas, Alves Filho teve uma hemorragia, e como não havia sangue suficiente no hemocentro, o transplante foi cancelado. Ele voltou para a fila de transplantes e o fígado, foi enviado a Campinas.

Em outro caso, o paciente nem chegou a ir para a sala de cirurgia e o órgão foi para outro paciente, em São Paulo. Em Rio Preto, se a crise continuar, as cirurgias eletivas também poderão ser canceladas.

Campanhas

Em todos os bancos, os grupos sanguíneos O e A, especialmente os de fator Rh negativo, são os que mais faltam e cujos estoques não são suficientes para passar a semana. A saída então foi intensificar as campanhas de coletas. Em Rio Preto, a campanha foi direcionada exclusivamente aos motoristas.

- Foram captadas 68 bolsas. É um bom resultado, mas ainda insuficiente para nivelar o estoque. Estamos com uma média de 50 doações por dia, quando o correto seriam 90 doações diárias - diz Andresa Lopes dos Santos, assistente social do hemocentro de Rio Preto. Segundo ela, o estoque está 50% abaixo do normal.

Em Ribeirão Preto, a coleta durou todo o dia, mas o volume não foi suficiente para reduzir o déficit de 25% no estoque mínimo de sangue. Segundo a assistente social Marina Pereira Braga, o hemocentro está telefonando aos doadores cadastrados para convocá-los a irem nos pontos de coleta fazer as doações.

Nesta sexta-feira, as doações foram menores, possivelmente devido à chuva. Segundo Marina, o hemocentro processa cerca de 8 mil doações/mês, mas neste ano a média caiu para 6 mil/mês.

Em Araçatuba, o hemonúcleo também funcionou nesta quinta-feira, mas conseguiu captar somente três bolsas.

- Estamos iniciando uma campanha para a semana do Dia das Mães e iniciaremos coletas pessoalmente em cidades vizinhas - diz Lucia Aparecida Machada, do setor de captações do hemonúcleo. Segundo ela, a expectativa é recolher pelo menos 200 bolsas nas coletas nessas cidades para que o fornecimento de sangue não entre em colapso e passe a afetar a realização de cirurgias e transfusões nos hospitais da região.

Técnicos e profissionais dos hemocentros ouvidos disseram não saber apontar qual a principal causa da falta de sangue, que é maior que nos anos anteriores, mas prevêem que a situação pode piorar se não forem feitas campanhas para conseguir mais doações.

- Uma das causas pode ser a vacina da febre amarela, que impede a doação de sangue por 30 dias, mas ninguém sabe ao certo - diz Andresa.

- Pode ter sido a seqüência de feriados prolongados, que afastaram os doadores e, pior, deve continuar afastando porque tem a semana do Dia das Mães e o feriado de 22 de maio - aponta Marina Braga.

- Além disso, vem agora a vacinação da gripe, que também impede a doação de sangue por um período de 30 dias - completa Andresa.

Ao contrário, o hemocentro de Marília, na região Central do Estado, não enfrenta crise.

- Aqui está tudo tranqüilo - diz o assistente social do órgão, Rafael José da Silva. Segundo ele, o segredo está na antecipação das campanhas.

- Trabalhamos de forma bem prevenida; quando temos um feriadão pela frente, fazemos coletas pessoalmente e intensificamos o contato com nossos doadores, mas nunca dá para garantir que ficaremos com o estoque em dia, mas nos dá uma garantia - comenta.