Indígenas: Acesso à universidade aumenta mas desafio é concluir curso

Agência Brasil

RECIFE - A estudante indígena de nutrição Samira Marcos Tribodowapré ainda nem se formou e já usa seus conhecimentos para melhorar a alimentação de seu povo. Ela orienta as comunidades sobre como adaptar à alimentação dos índios os produtos industrializados, que fazem parte do cardápio das aldeias.

A futura nutricionista quer formar agentes multiplicadores quando concluir o curso. A idéia é evitar o aumento de doenças que têm crescido entre os índios como o diabetes, a hipertensão e colesterol alto.

- As aldeias que podem produzir o próprio alimento sofrem menos, como as do Xingu, onde se come, basicamente, biju e peixe. Já as que ficam próximas às cidades, muitos recebem cesta básica e encontram com facilidade produtos industrializados. Tomam muito refrigerante, comem manteiga e doces com muito açúcar - conta.

Os pais de Samira Marcos Tribodowapré trabalham na Fundação Nacional do Índio (Funai) e podem pagar uma faculdade para filha, que cursa a Universidade Católica de Brasília. Mas a estudante é uma exceção entres os universitários indígenas. Os jovens reconhecem que o acesso ao ensino superior melhorou nos últimos anos com as cotas, mas terminar o curso ainda é um problema.

- Não existe um incentivo. Os estudantes acabam enfrentando dificuldades para comprar comida, roupa, livros e o resto das coisas de que precisa - disse o estudante de ciências sociais da Universidade Estadual de Londrina, Marciano Gurani, ao participar na quarta-feira da Conferência Livre da Juventude, evento dos Jogos dos Povos Indígenas.

Além da falta de dinheiro, Guarani critica a falta de apoio pedagógico aos índios.

- Juntando tudo isso [apoio financeiro e pedagógico], acaba afetando emocionalmente o indígena, que desiste de tudo.

De acordo com o Ministério da Educação (MEC), existem no país cerca de três mil universitários indígenas. A maioria recebe uma bolsa de R$ 400 do governo federal e alguns ainda contam com uma complementação das universidades. Mas, mesmo assim, a evasão neste nível de ensino é de 80%.

- Além de a faculdade ser um ambiente hostil nos primeiros anos, pela própria relação de calouros e veteranos, um índio com cerca de 18 anos já tem família, filhos. Eles têm um compromisso com a aldeia. E uma parte desse dinheiro vai para casa - explicou o representante da Coordenação de Educação Escolar Indígena do MEC Thiago Garcia, em entrevista à Agência Brasil.

Segundo Garcia, que é antropólogo, outro fator que contribui para a evasão é o choque cultural.

- As universidades ficam na cidade enquanto a maior parte dos jovens saem de escolas dentro das reservas.

Para resolver o problema, ele disse que o ministério busca ampliar vagas e implantar, em parceria com as reitorias, um programa de apoio nas universidades, nos moldes do que está em andamento no campus de Cascavel, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.

Segundo Garcia, a idéia é que um professor acompanhe o desempenho acadêmico, enquanto um estudante de outra etnia acompanha e acompanha e orienta os indígenas.

- Também tentamos ampliar a parceria para oferecer mais vagas e ampliar a oferta de bolsas - disse o representante do MEC. Em outras atividades, os professores visitam aldeias e os alunos apresentam suas tradições na universidade.

Durante o debate, no Ginásio Geraldão, os jovens também destacaram a escassez de profissionais indígenas nas áreas de saúde.

- Apesar da dificuldade, do preconceito, precisamos de médicos, enfermeiros e fisioterapeutas - disse João Terena, representante indígena no Conselho Nacional da Juventude, integrado por representantes da sociedade civil e do governo federal.