Chico Alencar: 'A corrupção é crônica, mas pode ser combatida'

Júlia Moura, Agência JB

RIO - O deputado federal Chico Alencar, líder do PSol na Câmara, diz que o partido não quer ser uma usina de representações e que tem independência para apresentar ações à Mesa Diretora do Senado contra qualquer parlamentar.

O PSol é autor de quatro das cinco representações contra senador Renan Calheiros (PMDB) que estão no Conselho de Ética. Membro do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, o deputado diz em entrevista ao JB Online temer que as representações apresentadas contra Renan possam terminar em pizza .

JB Online: O PSol foi autor no maior número de representações contra o senador Renan Calheiros. Não houve excesso de representações?

Chico Alencar: O excesso não é de representações, e, sim, de malfeitorias por parte de várias autoridades públicas e cumplicidade por parte de vários partidos políticos que fazem vista grossa a procedimentos errados. O PSol não quer ser uma usina de representações, nosso projeto político vai muito além disso. Nós temos independência suficiente para denunciar comportamentos que ferem a ética, seja de parlamentares do PMDB, do PT, do PSDB ou de quem quer que seja. É provável que essas representações terminem em pizza, porque o corporativismo e o compadrio do parlamento continuam muito grande. A nossa expectativa é que a população faça uma avaliação desses julgamentos de acobertamento no Senado, para depois, com sua consciência crítica, possa tirar - até pelo voto - certas figuras que a representam tão mal.

JB Online: Como o senhor avalia a corrupção na política brasileira, que ganhou maior notoriedade com o episódio Renan Calheiros?

Chico Alencar: A corrupção está enraizada. Ela é crônica, sistêmica e secular, mas pode ser combatida. Não é uma condenação sermos brasileiros, não é uma pena nacional e não é uma característica da identidade tupiniquim. É algo derivado do sistema político e econômico. Hoje ela continua muito grande nas três esferas do poder público. As pessoas de bem tanto no executivo, no legislativo e no judiciário podem se unir no combate à corrupção. A sociedade através de um clamor crescente contra a corrupção, o indivíduo com um contestamento correto - sem subornar o guarda da esquina e com pequenos delitos do dia-a-dia -, aí eu creio que a gente avance. Não no moralismo, que é sempre ruim, mas na moralidade republicana que é uma necessidade.

JB Online: O que o PSol definiria como os maiores desafios do atual Congresso? O que é urgente mudar neste país? O fechamento do Senado, como chegou a ser proposto, é uma solução?

Chico Alencar: Primeiro, ter autonomia em relação ao poder executivo, isso significa ter uma pauta própria, sem ter que pedir a benção do executivo para qualquer projeto mais significativo. Segundo reduzir e até barrar a aceitação de medidas provisórias que todos os governos editam em profusão. Terceiro recuperar a credibilidade perante a população, como representação dela, e extinguir um ambiente de privilegiados e negocistas. Acho que é preciso ter uma reforma política no meio do sistema eleitoral. Se não, já no ano que vem, nas eleições municipais, os brasileiros vão ver abuso do poder econômico, corrupção e interesses privados garantindo mandatos públicos. A história se repetirá. Por isso, é preciso uma reforma política substantiva com participação popular. Mas, infelizmente, pelo que se vê, o atual Congresso Nacional, ainda que bem renovado, já envelheceu demais para ter força e energia para fazer essa reforma.