Manifestação em Brasília lembra vítimas de abortos inseguros

Agência JB

BRASÍLIA - Feministas de associações ligadas à Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) fizeram uma manifestação na manhã desta segunda-feira para lembrar mulheres que ficaram com seqüelas ou morreram por causa de abortos inseguros. Elas usaram sapatos para representar as mulheres mortas por complicações de abortos clandestinos.

De acordo com Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF, na siga em inglês), são realizados cerca de 1 milhão de abortos inseguros todos anos no Brasil. O problema é mais grave na Região Nordeste do país.

A representante da Associação Aquariana de Mulheres no Piauí, filiada à AMB, Silvana Oliveira, afirmou que o ato é para que o governo ouça as reivindicações das mulheres.

- Há milhares de vozes clamando pela legalização do aborto como uma urgência e uma questão de direitos humanos, porque são os direitos humanos das mulheres que estão sendo violentados.

- Nós mulheres mais pobres da federação viemos representar essa voz que está impedida do direito de decidir e de ser a única pessoa que tem direito sobre seu corpo. Estamos aqui para falar da autonomia das mulheres. Nem o Estado, nem igrejas e nenhum fundamentalismo podem escolher quem é o dono do nosso corpo. A escravidão ficou para trás na história da humanidade. Nós não podemos mais ser escravas das ideologias ou teologias modernas - acrescentou.

Silvana é contra a votação de um plebiscito, no Congresso Nacional, para que a população brasileira decida pela legalização ou não do aborto, como o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, propôs.

- Não é preciso um plebiscito não. Você quer um plebiscito para ser manipulado pela elite? Para ficar na mão de uma Igreja que se mobiliza historicamente contra as mulheres? Que impede a participação das mulheres nessa mesma Igreja? Eu acho desnecessário um plebiscito. Os nossos deputados têm que tomar vergonha e fazer o que a comunidade pediu para eles fazerem: votar favoravelmente a legalização do aborto. Qualquer representante de esquerda dentro desse Planalto sabe muito bem o que a comunidade brasileira quer. Esse plebiscito seria mais uma hipocrisia.

Outra representante da Associação Aquariana de Mulheres, Glória Maria Veras de Sandes, disse que a ilegalidade do aborto pode gerar outros crimes.

- São empresas clandestinas [que realizam abortos inseguros], de alta rentabilidade e não pagam impostos. Elas são hipócritas, porque escondem uma realidade. As meninas têm que mentir quando entram na unidade de saúde.

As feministas participam da 2a Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. Durante o evento são discutidos temas como o enfrentamento à violência, a igualdade no trabalho, saúde das mulheres, direitos reprodutivos e o Plano Nacional de Política para as Mulheres.

Na terça-feira, as participantes da conferência vão realizar a Marcha das Margaridas na Esplanada do Ministérios para chamar atenção do Congresso Nacional e do Poder Executivo para as reivindicações femininas.