Sem corpos, famílias vivem 'velório que não acaba'

Portal Terra

SÃO PAULO - Um mês após o maior acidente aéreo ocorrido em território brasileiro, que resultou na morte de 199 pessoas em São Paulo, cinco corpos ainda aguardam identificação no Instituto Médico Legal da capital. Quem passou ou ainda passa por essa dolorosa experiência classifica o período como um "velório que não acaba".

Ildecler Ponce de Leão, pai do garoto Levi, de um ano e oito meses, ainda vive a expectativa pela identificação do corpo do filho e expressa o estado em que se encontra.

- Eu não estou nem de luto. Não vi o corpo, não enterrei - disse ele, que também perdeu a mulher no acidente.

- A gente sabe como é dolorido. É pavoroso você a cada dia acordar e se dar conta de que não é um pesadelo, de que não tem volta - diz Christofe Haddad, pai de Rebeca Haddad, já identificada.

Haddad afirma que as famílias sabem que a demora se deve à dificuldade dos trabalhos e que os profissionais são incansáveis, mas classifica a espera como "um velório que não acaba".

A lista dos corpos que aguardam identificação traz ainda a comissária de bordo Michelle Leite, 26 anos, o executivo Rodrigo Benachio, 29 anos, o administrador Ivalino Bonato, 54 anos, e o consultor de marketing Andrei François de Melo, 42 anos.

Esforços

Na noite desta quinta-feira, houve uma reunião entre o secretário de Segurança Pública, Ronald Marzagão, o diretor de divisão do IML, Carlos Alberto de Souza Coelho, e parentes de quatro das cinco vítimas ainda não identificadas. O encontro durou cerca de uma hora. A maior preocupação, de acordo com Coelho, é que alguns corpos não sejam identificados.

- Eles têm medo que a gente desista, que a gente pare. Mas nós não paramos nunca - diz. O secretário garantiu aos parentes que a forma de informá-los sobre o andamento dos trabalhos será melhorada.

- É muito doloroso. Eles estão aguardando ansiosamente - afirmou Marzagão.

Coelho afirma que a única forma restante para a identificação das últimas cinco vítimas é o exame de DNA.

- O trabalho de contato direto com o corpo acabou.

Os cinco corpos restantes são os mais difíceis de serem identificados por estarem na parte da frente do avião, de acordo Coelho.

- O impacto mutila, a explosão mutila ainda mais e o fogo de longa duração a uma temperatura muito alta permite a degradação do DNA.

Cada amostra dos corpos das vítimas passa por uma análise que identifica 16 fragmentos do DNA. O processo dura cerca de 36 horas. Devido à decomposição dos fragmentos, o procedimento nem sempre é bem sucedido.

- A dificuldade é que as amostras de que dispomos não fornecem proteína (DNA). E a cada tentativa a amostra diminui - diz Coelho.

Apesar disso, ele afirma que até agora não há a possibilidade de algum dos corpos não ser identificado e agradece o trabalho feito pelo Instituto.

- Estou surpreso com a nossa equipe.

O médico afirma que, com cinco famílias, é possível conversar e amparar.

- As famílias compreendem (a dificuldade do trabalho). Estão apreensivas, tristes e ansiosas. Querem uma palavra de conforto, saber se a instituição continua trabalhando.