Brasil, EUA, UE e Índia tentam salvar Rodada Doha

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POTSDAM - Potências comerciais tentam na quinta-feira salvar as negociações globais da Rodada Doha, mas dão poucas pistas sobre a possibilidade de acordo a respeito de agricultura e outros temas delicados.

Se Brasil, Índia, Estados Unidos, União Européia (UE) não chegarem rapidamente a um consenso, a Rodada pode parar definitivamente ou ser congelada durante anos.

Os negociadores-chefe do chamado G4 que se reúnem nesta semana em um histórico palácio de Potsdam, perto de Berlim, estão sendo avessos a jornalistas. Outros delegados dizem terem sido orientados a não falar.

- Obviamente a intenção da reunião é ter discussões sérias e negociações, não ficar apontando dedos ou fazendo vazamentos sobre o que deveria estar acontecendo em reuniões reservadas', disse Sean Spicer, porta-voz da representante comercial norte-americana, Susan Schwab.

Em Manila, Supachai Panitchpakdi, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), mostrou-se otimista, dizendo que ainda é possível que haja acordo até o final do ano.

Tanto Schwab quanto o chanceler brasileiro, Celso Amorim, chegaram a falar com jornalistas no começo desta semana, a qual foi classificada pela norte-americana como uma fase crítica para a Rodada Doha.

Amorim disse a jornalistas brasileiros que os EUA ainda não ofereceram os cortes que os países em desenvolvimento desejavam para os subsídios a produtores rurais norte-americanos, mas que as reduções em discussão 'começam a parecer mais favoráveis'.

Os EUA oferecem limitar em 22,5 bilhões de dólares as ajudas a produtores rurais que possam distorcer o comércio, o que significa uma redução de 53 por cento em relação ao teto atual.

Mas Brasil e Índia, líderes do chamado G20 (grupo de países em desenvolvimento), defendem que esse teto dos EUA fique na faixa de 12 bilhões a 15 bilhões de dólares por ano.

Washington sinaliza que pode melhorar sua proposta, mas só se os grandes países em desenvolvimento e a UE abrirem seus mercados a mais exportações agrícolas dos EUA.

Falando na semana passada, Schwab não quis dizer até onde pode ir a oferta norte-americana, mas afirmou que os outros podem ameaçar as chances de sucesso se exigirem demais.

- É possível que os parceiros comerciais escolham um número tão ridiculamente baixo que seria uma pílula venenosa - disse a representante comercial.

Mas a valorização das commodities e a ameaça de processos cada vez mais frequentes contra as práticas agrícolas dos EUA na OMC podem convencer Washington a se aproximar das reivindicações do G20, segundo Sherman Katz, analista de política comercial no Fundo Carnegie para a Paz Internacional.

- Agora temos provavelmente a melhor oportunidade em bastante tempo para cortar os subsídios - disse Katz.

Mas, para convencer o atual governo dos EUA a fazer tal proposta ao Congresso, outros países teriam de oferecer muito mais acesso a seus mercados -- não só no setor agrícola, mas também no industrial e de serviços, segundo Katz.

Em carta a Schwab e ao comissário europeu de negócios, Peter Mandelson, na quarta-feira, importantes industriais dos EUA e da UE alertaram que não poderiam apoiar um acordo que gerasse poucas novas exportações aos países em desenvolvimento.