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País - Eleições 2018

Bolsonaro começa a preparar governo de direita

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Jair Bolsonaro inicia nesta segunda-feira suas atividades como presidente eleito, com projetos de ruptura com tudo o que tem a marca da esquerda no campo da economia, de políticas sociais e alinhamentos diplomáticos do Brasil.

"Não podemos continuar flertando com o socialismo, o comunismo, o populismo e o extremismo de esquerda", afirmou Bolsonaro, do PSL, um admirador da ditadura militar (1964-1985), depois de ser eleito no domingo com 55% dos votos, contra 45% de Fernando Haddad, candidato do PT.

O ultraliberal Paulo Guedes, a quem Bolsonaro prometeu o ministério da Fazenda, anunciou de modo imediato a intenção de "mudar o modelo econômico social-democrata" com um programa acelerado de privatizações e de controle dos gastos públicos, como receita para reativar uma país que passou por dois anos de recessão e outros dois de crescimento frágil.

Para isso, acrescentou, "precisamos de uma reforma da Previdência".

Os anúncios devem ser bem recebidos na abertura dos mercados nesta segunda-feira.

O presidente Michel Temer, que desde que sucedeu em 2016 a presidente afastada Dilma Rousseff aplica um plano de severos ajustes, expressou o desejo de planejar a transição antes da cerimônia de posse de 1º de janeiro "para dar continuidade ao que fizemos".

Bolsonaro, 63 anos, ainda carrega uma bolsa de colostomia em consequência da facada que sofreu no abdômen em setembro. Sua viagem à Brasília pode demorar mais um pouco.

No plano internacional, Bolsonaro expressou o desejo de um alinhamento com o presidente americano Donald Trump, que ligou para felicitar o presidente eleito.

Em termos regionais, a aproximação pode acentuar a pressão sobre o governo da Venezuela, país que sofre uma crise econômica e social.

O ex-estrategista de comunicação de Trump, Steve Bannon, deu as boas-vindas a Bolsonaro ao clube dos governantes nacionalistas e ultraconservadores que chegaram ao poder nos últimos anos na América, Europa e Ásia.

"Sem dúvida nenhuma" que Bolsonaro faz parte desta onda, disse Bannon ao jornal econômico Valor.

Um dos principais representantes desta corrente, Matteo Salvini, líder da extrema direita na Itália e ministro do Interior do país, saudou a vitória de Bolsonaro.

"No Brasil os cidadãos expulsaram a esquerda! Bom trabalho para o presidente Bolsonaro, a amizade entre nossos povos e governo será ainda mais forte", escreveu no Twitter.

Também afirmou que aguarda a extradição do ex-militante de esquerda Cesare Battisti, condenado por quatro assassinatos na Itália e que o ministro chamou de "terrorista vermelho". Bolsonaro fez esta promessa antes de ser eleito.

Bolsonaro chega ao poder com propostas para blindar judicialmente as operações policiais e flexibilizar o porte de armas para combater a criminalidade, em um país que registrou no ano passado quase 64.000 homicídios.

Seguindo os passos de Trump, Bolsonaro e seus simpatizantes transformaram a imprensa e os jornalistas em alvos.

Também anunciou a intenção de acabar com o "ativismo ecologista 'xiita'".

As ideias provocaram receio entre as organizações de defesa dos direitos humanos.

A ONG Human Rights Watch fez um apelo urgente a proteger os direitos democráticos no Brasil,

O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que Paris "deseja prosseguir sua cooperação com o Brasil em um marco de respeito dos valores (democráticos)".

A Comissão Europeia afirmou esperar que Bolsonaro trabalhe para "consolidar a democracia" no Brasil.

 

Haddad exigiu respeito por seus 45 milhões de eleitores e disse que a oposição ao futuro governo Bolsonaro será uma "tarefa enorme".

Haddad foi designado candidato pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder histórico da esquerda que cumpre uma pena de 12 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.

Haddad contou com o apoio de milhões de brasileiros que se beneficiaram das políticas de inclusão social de Lula, mas a identificação também trouxe um grande índice de rejeição entre os que identificam Lula e o PT com os grandes escândalos de corrupção da última década.

Muitos líderes de partidos de centro e centro-esquerda se limitaram a expressar apoio crítico à candidatura de Haddad.

Resta saber se o PT, derrotado pela primeira vez nas últimas cinco eleições presidenciais, é capaz de fazer a autocrítica solicitada por militantes e aliados.

A crise na esquerda não significa que Bolsonaro terá vida fácil, sobretudo pela necessidade de lidar com um Congresso com quase 30 partidos, dominado por lobbies conservadores, mas não obrigatoriamente disciplinados na hora de votar os projetos.

A consultoria Eurasia Group afirma que Bolsonaro "não terá uma lua de mel muito intensa", porque as eleições demonstraram sobretudo um "profundo desencanto da política e a revolta pela baixa qualidade dos serviços públicos nas áreas de saúde, segurança e educação".

 

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