Guerra de informação suja

Diretora da Escola de Comunicação da UFRJ diz que fake news são fenômeno que chegou para ficar

A diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFRJ), Ivana Bentes, alerta que a “guerra de informação suja” nessas eleições, travada na trincheira virtual das redes sociais, especialmente na deep web do WhatsApp, terá que ser combatida com as mesmas armas e no próprio campo de batalha em que se desenrola — a artilharia pesada de memes e fake news são novos fenômenos da comunicação que vieram para ficar. Em teoria, as redes também podem ser usadas para fortalecer a democracia, mas é preciso atenção: “As pessoas cansaram de ser espectadores da política, querem agir e incidir, decidir no que afeta suas vidas. Esse é o lado positivo dessa epidemia participativa e do cidadão-mídia. Mas as redes também podem produzir novas formas de autoritarismo e ditaduras de novo tipo, com decisões sumárias baseadas em uma guerra de informação suja”.

Macaque in the trees
"É muito cedo para falar de fim da democracia representativa, mas podemos falar da sua crise e limites. (...) [ela] não consegue acompanhar a velocidade e os novos tempos da democracia em tempo real" (Foto: Facebook)

Nas eleições de 2018, as redes sociais parecem desbancar os meios até então convencionais de fazer campanha política. Como avalia isso?

O WhatsApp mostrou sua força como mídia digital e rede de organização, com a greve dos caminhoneiros, que parou o país articulada por um campo que não tinha visibilidade. Esse grande alcance, velocidade e poder de viralizar reivindicações foi decisivo para construir uma opinião pública, pressionar o governo e chegar a resultados que um movimento tradicional talvez não conseguisse. Isso que parecia ser um fenômeno pontual, está se repetindo na disputa eleitoral. A explosão das redes de WhatsApp ligadas à campanha de Jair Bolsonaro no primeiro turno se mostra como um misto de escândalo eleitoral com impulsionamento massivo comprado, como foi denunciado, mas também com a formação de uma rede orgânica de apoiadores, que vão desde pessoas comuns, simpatizantes do candidato, até o que estou chamando de milícias digitais, grupos e pessoas contratadas para produzir fake news, mentiras, medo, teorias da conspiração, tudo o que possa destruir a reputação do candidato rival.

Como isso se deu?

Foi criado um ecossistema tóxico, baseado em um modelo de negócio, as fake news, que aplicado no campo político é catastrófico. Ao mesmo tempo, a reação do primeiro para o segundo turno foi imediata e surgiram grupos, redes, de neutralização dessa avalanche de notícias, memes, vídeos, que estão alertando o eleitor sobre essa epidemia de fake news. Ou seja, o veneno também funciona como antídoto e remédio.

Esse poder do modo de viver virtual chegou para ficar? Seria o fim das democracias como conhecemos?

Acredito que estamos no meio de um processo de mutações em diferentes campos, em que co-evoluímos com as tecnologias e dispositivos. É muito cedo para falar de fim da democracia representativa, mas podemos falar da sua crise e limites. As pessoas cansaram de ser espectadores da política, querem agir e incidir, decidir no que afeta suas vidas. Esse é o lado positivo dessa epidemia participativa e do cidadão-mídia. Mas as redes também podem produzir novas formas de autoritarismo e ditaduras de novo tipo, com decisões sumárias baseadas em uma guerra de informação suja.

O que são e como funcionam as milícias digitais?

O que estou chamando de “milícias digitais” é o uso do domínio informacional para produzir uma desorientação política, usando notícias falsas, memes, utilizando uma desordem informacional para construir e direcionar a opinião pública. Vimos isso acontecer nas eleições dos EUA que deram vitória a Donald Trump e no Brexit, no Reino Unido. As denúncias no Brasil se referem a um mesmo procedimento: as “psyops”, operações psicológicas de produção da opinião pública pelo direcionamento de informações, como explicou Christopher Wylie, ex-empresário da Cambridge Analytica, sobre os processos que culminaram com a eleição de Trump: “Mudando a cabeça das pessoas não através da persuasão, mas por meio de ‘domínio informacional’, uma série de técnicas que incluem rumores, desinformação e fake news”. Nas eleições brasileiras, estamos vendo o desenrolar de denúncias graves de uso da rede WhatsApp pelos marqueteiros de Bolsonaro, com apoio de Steve Bannon e financiados por empresários brasileiros.

Haveria outros fatores para criar essa onda Bolsonaro que varre o país?

O antipetismo alucinatório produzido pela mídia desde o impeachment de Dilma Roussef, a corrupção escancarada pela Lava Jato, o desencanto político e a crise econômica são alguns dos fatores que, juntos, produziram uma “onda”. Sabendo que as ondas e o virais mudam com a mesma rapidez com que se formam.

Como distinguir as ‘fake news’?

A primeira coisa a fazer é deixarmos de ser reféns dos grupos de WhatsApp e diversificar nossas fontes: pesquisando na Internet, checando fatos e dados, perguntando quais as fontes das informações recebidas e tendo consciência que nessas eleições, os conteúdos de propaganda política foram travestidos de notícia, ganharam a forma, o design, a “cara” de notícia.

Qual passaria a ser o papel dos debates nas TVs, dos meios de comunicação e dos comícios nas campanhas eleitorais? Eles estão condenados a perder de vez o protagonismo?

O Brasil tem mais pessoas consumindo informações pelo celular do que pela TV, ou seja, é uma mudança importante de cenário, em que a televisão vem perdendo centralidade, apesar de ainda se manter relevante. Mas é sintomático que pela primeira vez desde 1989 não haverá o debate com os candidatos à Presidência da República no Brasil. Os dois candidatos ao maior e mais relevante cargo do país chegam no domingo da eleição sem terem feito nenhum debate na TV frente a frente.

O movimento #Elenão parece ter acabado se revertendo num tiro no pé do campo mais progressista, com a manipulação das ‘fake news’. Qual a sua avaliação deste episódio?

Acho que a ideia de que o #EleNão teve o “efeito contrário” do esperado nessas eleições me parece uma análise muito imediatista. Não vejo essa relação direta entre causa e efeito no fato de Bolsonaro ter aumentada a intenção de votos logo depois dos atos em todo o Brasil. Sim, foi produzida uma quantidade enorme de fake news manipulando as imagens dos atos, desqualificando as mulheres, utilizando imagens falsas para reforçar as polarizações entre a família tradicional, as mulheres de bem versus do que chamaram de “feminazis”, as mulheres que ameaçam a tradição patriarcal, as libertinas, as pervertidas, tudo isso foi usado de forma eficaz nas redes bolsonarianas. Mas o #Elenão também explodiu as bolhas e produziu a primeira onda em que Bolsonaro aparece como uma ameaça para além de uma mera disputa eleitoral. .

Bolsonaro personifica a memética?

Os memes são artefatos culturais que reforçam ideias, crenças, utilizando diferentes linguagens, memes políticos, de zoeira, paródias, remix e que aumentam nossa adesão, nos engajam. A memética tem que ser levada a sério, inclusive pelos campos progressistas, humanistas e pelas esquerdas, é um modo epidêmico de fazer política. Bolsonaro é um candidato Meme, o Bozo, o Palhaço, o troll, em que a fala tosca e o ideário retrógrado e totalitário é relativizado por parte dos seus seguidores como piada, escracho, deboche, o “Mito’, mas também levada ao pé da letra, na sua literalidade, por um outro contingente de eleitores que se apega às verdades e truísmos maniqueístas e simplórios e se identificam com um ideário ultraconservador. Se eleito, Bolsonaro seria o triunfo da memética.

Os próprios tribunais estão sem saber como combater as ‘fake news’ nas campanhas. A Internet já existe há tanto tempo, por que o Brasil até hoje não criou uma regulação?

Temos o Marco Civil para a Internet gestado nos governos Lula/Dilma, quando o Brasil estava na vanguarda desse processo de regulamentação da internet. Foi proposta também a Lei de Proteção de Dados Pessoais, que ao lado do Marco Civil da Internet, traz a questão decisiva de proteger o cidadão de operações ilegais ou antiéticas, como a da criação de milhares de grupos de WhatsApp para fins de propaganda política, a exemplo do que temos visto acontecer. Os discursos de ódio, o racismo são crimes que têm que ser combatidos nas redes da mesma forma que nas ruas, nos ambientes presenciais. Temos legislação para isso. A questão é que a justiça analógica e lenta não está sabendo lidar com a velocidade das redes, com a deep web do WhatsApp, com novas formas de crime eleitoral. A Justiça Eleitoral e o Ministério Público vão ter que se reinventar para não serem atropelados por esses fenômenos midiáticos. A democracia direta e as milícias digitais estão atropelando a justiça analógica.