Bolsonaro perto de Trump, Brasil longe do mundo

O candidato de extrema direita Jair Bolsonaro, favorito para conquistar a Presidência do Brasil, pretende se aliar a Donald Trump para dar uma virada na política externa da maior potência latino-americana.

"Trump quer a América grande, eu quero o Brasil grande", afirmou o capitão da reserva do Exército, que questiona a busca de alianças sul-sul dos governos de esquerda (2003-2016) e semeia dúvidas sobre a permanência do Brasil em instâncias multilaterais como o Acordo de Paris contra as mudanças climáticas.

Bolsonaro pode chegar a "ser bastante paroquiano e pensar somente no Brasil", opina Michael Shifter, diretor do centro de estudos Diálogo Interamericano, com sede em Washington.

Ainda assim moverá as fichas diplomáticas. E sobre o tabuleiro estão questões como a estratégica relação com a China, a eventual transferência da embaixada brasileira em Israel e a crise na Venezuela.

 

Bolsonaro não hesitou em questionar a "decadente" Venezuela, assim como Cuba. "Deixaremos de louvar ditaduras assassinas e desprezar ou mesmo atacar democracias importantes como EUA, Israel e Itália", sustenta o seu programa de governo.

Em sua tentativa de agradar Trump e assegurar o apoio das poderosas igrejas evangélicas, Bolsonaro anunciou a sua intenção de mover a embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Também prometeu ao governo ultranacionalista italiano que extraditaria o ex-militante de esquerda Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua no país europeu.

Se concretizar o primeiro, poderá gerar tensões com o mundo árabe e "colocaria fim ao princípio de neutralidade (do Brasil) no conflito entre israelenses e palestinos", adverte Thomaz Favaro, da consultora Control Risks.

Embora queira se posicionar como aliado de Trump, "falta saber se haverá reciprocidade", acrescenta. O líder americano já se queixou da dificuldade de fazer negócios com o Brasil por conta de suas barreiras alfandegárias.

Trump vem somando aliados contra o governo de esquerda da Venezuela, sondando a possibilidade de uma opção militar, e pressiona o México e os centro-americanos pela crise migratória.

Ao mesmo tempo, negocia com o Brasil o uso da base de lançamento de satélites de Alcântara, uma opção denunciada por setores nacionalistas brasileiros, que veem como uma perda da soberania. O capitão da reserva pode ter a última palavra a respeito.

 

Apesar de Bolsonaro ter muito a fazer no próprio país - reduzir o desemprego que afeta 12,7 milhões de brasileiros e frear a violência que matou 63.800 pessoas em 2017 -, suas decisões na frente externa podem isolar o Brasil, adverte Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

"Ele não aprecia o multilateralismo; não lhe interessa a integração regional (...) Devido a sua retórica, teremos muita dificuldade em ter relações fortes com países, que pensarão duas vezes antes de se encontrar com o presidente Bolsonaro", afirma.

O capitão da reserva, defensor da ditadura militar e de seus métodos de tortura, planeja flexibilizar a posse e o porte de armas e deixar a polícia livre para agir contra o crime.

Essas opções lhe renderam comparações com o presidente filipino, Rodrigo Duterte, e sua questionada guerra contra as drogas.

O candidato pelo PT à Presidência, Fernando Haddad, o acusou de querer transformar o Rio de Janeiro em um "estado miliciano como as Filipinas", por conta das milícias que atuam nas comunidades.

 

Enquanto quer se aproximar dos Estados Unidos, Bolsonaro enviou sinais pouco amistosos à China, principal sócio comercial do Brasil desde 2009 e um de seus maiores investidores.

Primeiro visitou Taiwan - cuja soberania não é reconhecida por Pequim - e depois declarou que o gigante asiático estava "comprando o Brasil".

"Se a situação econômica continuar complicada, não outra opção a não ser aprofundar" a relação com os chineses, afirma Shifter. O Brasil vem se recuperando de dois anos de recessão (2015-2016), e uma má relação com Pequim "tem um custo econômico gigante", concorda Stuenkel.

Apesar de suas declarações, o ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos Rubens Barbosa considera que, uma vez no poder, Bolsonaro atenuará as suas posições mais radicais.

O que acontecerá "é que a política externa vai ser uma política liberal e de aproximação com países desenvolvidos, aberta à negociação de acordos comerciais e (com) uma posição muito firme na região em relação à questão da proteção fronteiras em relação à Venezuela", sustentou.

 

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