Cientistas políticos latino-americanos avaliam perspectivas da disputa presidencial do Brasil

A disputa entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, no dia 28 de outubro, é acompanhada com atenção por acadêmicos e atores políticos mundialmente. A perspectiva de alterações na política externa e comercial do Brasil a partir de janeiro é avaliada de perto em especial pelos países vizinhos, os primeiros a sentirem o impacto do novo ocupante da Presidência da República. Segundo especialistas latino-americanos ouvidos pelo JORNAL DO BRASIL, Bolsonaro representa um horizonte de incertezas, inclusive no âmbito internacional.

Para o cientista político venezuelano William Clavijo, crítico do regime de Nicolás Maduro, apesar de um governo ultraconservador como o de Bolsonaro ser conveniente para opositores do chavismo, o caráter autoritário de seu governo traz riscos às instituições e aos direitos civis no Brasil, o que exigiria um compromisso firme dos setores democratas no continente pela observância das normas do jogo democrático.

“Enquanto a América Latina vive esse embate absurdo entre esquerda e direita, o debate mais preocupante, que a esquerda brasileira não fez no caso da Venezuela, se dá entre autoritarismo e democracia. Hugo Chávez era autoritário e Maduro é autoritário, mas ambos se apoiaram nas lideranças de esquerda para ganhar legitimidade na região. Bolsonaro, no entanto, é da ultradireita e representa o autoritarismo”, afirma Clavijo. “O impacto do fantasma da crise venezuelana sobre o candidato do PT é paradoxal, porque Fernando Haddad não é o que mais traz similaridades com os líderes bolivarianos. Bolsonaro se adequa mais ao perfil autoritário”, compara.

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Candidatos à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). (Foto: Tânia Regô / Marcelo Camargo / Agência Brasil)

Ainda no âmbito da Venezuela, a colombiana e professora do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Iri/Puc-Rio), Maria Elena Rodríguez, enxerga caminhos opostos a serem seguidos pelos dois candidatos que se capacitaram para o segundo turno. “Bolsonaro seguramente buscará um alinhamento mais ativo com os Estados Unidos, o que pode incluir uma parceria com o presidente da Colômbia, Iván Duque, tanto nas questões relativas à Venezuela quanto na reorganização da direita latino-americana”, avalia Rodríguez. Para ela, Haddad retomaria os pilares da política externa dos governos petistas e a integração latino-americana.

Guinada brasileira à direita

Clavijo, que também é doutorando de políticas públicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e vive no Brasil desde 2013, acredita que o resultado do primeiro turno e a futura composição do Congresso Nacional e dos governos estaduais foram uma reação do eleitorado ao establishment político. “O curioso é que os partidos tradicionais não foram barrados por alguém de fora da política. Não houve um outsider. Jair Bolsonaro tem quase 30 anos de atividade parlamentar e não era levado a sério pela classe política”, explica Clavijo, que enxerga uma inclinação dos partidos de centro-direita em apoiar a agenda ultraconservadora em temas democráticos, sociais e ecológicos do candidato. Bolsonaro já prometeu deixar o Acordo de Paris, assinado em 2015 após forte articulação da diplomacia brasileira junto à União Europeia (UE).

Rodríguez, por sua vez, relaciona a configuração do segundo turno a uma crise profunda do sistema político brasileiro, que culmina na derrota da esquerda e da centro-direita no país. “Houve um ressurgimento da extrema-direita que acreditávamos estar sepultada”, diz a professora, que também menciona a crise das legendas de centro. “Bolsonaro oferece uma perspectiva de ordem como solução para a crise moral e a perda de rumo”, completa.

O cientista político nicaraguense e pesquisador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur/UFRJ), Humberto Meza, atribui a ascensão do que chama de “bolsonarismo” ao descontentamento do eleitor brasileiro com a classe política e aos problemas de segurança pública, mas ressalta que o Brasil não está isolado. “A onda ultraliberal é comum a muitas democracias ocidentais, como na Itália, com (o vice-premiê) Matteo Salvini, a extrema-direita na França, representada por Marine Le Pen, ou mesmo Donald Trump nos EUA”. Para todos os efeitos, Meza acredita que a onda global impulsionou um fenômeno antissistema já observado desde as Jornadas de Junho de 2013, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff e culminando no “radicalismo violento” representado pela candidatura de Bolsonaro.

O acadêmico faz paralelos entre a eleição brasileira e a grave crise política na Nicarágua, que se estende há seis meses. “O governo de Daniel Ortega confunde a opinião pública com montagens e notícias falsas que tratam ativistas universitários e rurais como terroristas”, lembra o nicaraguense, que ressalta: “Apesar da retórica e da lamentável nota de apoio que o PT fez a favor do governo autoritário de Daniel Ortega, passando pelo Foro de São Paulo, o PT não necessariamente reproduz a prática fascista e autoritária que a Nicarágua vive desde abril”. Ele diz esperar que, com a eventual negociação de Haddad com o centro político, críticas mais contundentes aos regimes de Maduro e Ortega sejam realizadas.

Na última quinta-feira, a líder da extrema-direita na França, Marine Le Pen, criticou Bolsonaro por dizer “coisas extremamente desagradáveis” que “não podem ser transferidas para a França”, como as declarações tidas como homofóbicas e machistas do presidenciável. Na segunda-feira, o economista e filósofo Francis Fukuyama, conhecido por ter sido o mentor do ex-presidente dos EUA Ronald Reagan e da ex-primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher, os dois principais pilares do neoliberalismo e do conservadorismo social, demonstrou preocupação com a eventual eleição do candidato do PSL.

“É perturbador o número de brasileiros que tiveram acesso à educação e embarcaram na onda de Bolsonaro e a animação do mercado financeiro com sua possível vitória: pode a democracia brasileira ser salva?”, questionou Fukuyama pelo Twitter. Três dias depois, ele ironizou a reação de apoiadores do capitão reformado: “Muitos brasileiros parecem acreditar que sou comunista porque estou preocupado quanto a um governo Bolsonaro. E vocês acham que os americanos estão polarizados”, escreveu o economista.