Sobe o tom da campanha para segundo turno no Brasil

A campanha presidencial subiu de tom depois que o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, chamou seu adversário, Fernando Haddad, do PT, de "canalha", enquanto os demais partidos começaram a definir suas posições para o segundo turno, em 28 de outubro.

O Partido Socialista Brasileiro (PSB) pediu nesta terça-feira (9) a formação de uma "frente democrática" contra Bolsonaro, com pouco eco. O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), dividido, decidiu não indicar uma posição aos seus militantes.

Haddad, segundo colocado no primeiro turno, em 7 de outubro, com 29% dos votos, propôs na segunda-feira (8) a Bolsonaro, que teve 46% da preferência do eleitorado, que eles assinassem uma carta de compromisso contra a propagação de notícias falsas.

Mas o capitão da reserva do Exército rejeitou a proposta e jogou na cara do rival sua ligação com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que cumpre pena de 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

"O pau mandado de corrupto me propôs assinar carta de compromisso contra mentiras na internet. O mesmo que está inventando que vou aumentar imposto de renda para pobre. É um canalha!", tuitou Bolsonaro nesta segunda.

"Recebemos uma resposta do nível do candidato", respondeu Haddad nesta terça-feira.

Na noite passada, os dois candidatos deram entrevistas ao Jornal Nacional, nas quais desautorizaram aliados e garantiram que não vão desrespeitar a Constituição para impulsionar seus projetos, tentando se aproximar dos eleitores de centro.

 

Enquanto isso, os atores políticos debatem se devem apoiar algum dos candidatos.

Bolsonaro acumula um histórico de declarações misóginas, racistas e de apoio à ditadura militar (1964-1985), enquanto Haddad foi indicado por Lula, a quem milhões de brasileiros identificam com os escândalos de corrupção que durante anos desviaram bilhões de reais de estatais.

O PSDB "decidiu liberar os seus militantes e seus líderes para que decidam", disse na saída de uma reunião em Brasília o ex-candidato à Presidência Geraldo Alckmin, que obteve no primeiro turno 4,76% dos votos.

FHC, um dos fundadores do partido, não esteve presente no encontro. Na véspera, ele disse ao jornal O Globo que nenhum dos dois candidatos lhe agrada, mas que Bolsonaro está fora de questão.

Essa é a primeira vez que o PSDB fica fora da definição pela Presidência desde 1994, além de ter visto nessas eleições a sua bancada na Câmara dos Deputados cair de 54 para 29 integrantes.

O Partido Progressista (PP), que terá a terceira maior bancada na Câmara de Deputados renovada, declarou-se neutro. Mas a senadora do PP Ana Amélia Lemos, que foi candidata a vice na chapa liderada por Alckmin, pediu apoio para Bolsonaro.

O Partido Novo, do candidato João Amoedo (2,50% de votos), também apostará na neutralidade, embora tenha deixado claro que é "absolutamente contrário" ao PT de Haddad.

A ex-candidata e líder ambientalista Marina Silva (que teve 1% dos votos) disse no domingo que fará oposição a qualquer um que for eleito presidente, mas seu partido, o Rede Sustentabilidade, ainda discute seu posicionamento.

Haddad já recebeu o apoio de Guilherme Boulos, candidato à Presidência pelo PSOL (0,58% dos votos), e do PSB a fim de evitar a chegada ao poder de um admirador da ditadura militar.

Mas o principal apoio de Haddad deverá ser o pedetista Ciro Gomes (12,47%), que no domingo disse que sua prioridade será "lutar pela democracia e contra o fascismo", antes de emendar, "Ele não!", em alusão ao lema criado pelo movimento feminista contra Bolsonaro.

 

"Foi colossal o volume de notícias falsas nas sete semanas do primeiro turno", escreveu a Agência Lupa, especializada na checagem de notícias. "É um cenário alarmante que tende a se agravar com a polarização que se anuncia para os próximos dias".

Segundo a Lupa, as dez "fake news" mais populares foram compartilhadas 865.000 vezes no Facebook.

Entre o domingo e a segunda-feira circularam vídeos afirmando que Haddad renunciou à sua candidatura, que Lula havia declarado apoio a Bolsonaro ou de uma urna eletrônica que só aceitaria votos em Haddad. Todos os casos foram desmentidos.

Nesta terça, a jornalista Miriam Leitão sofreu ataques violentos nas redes sociais por ter lembrado na Globo News que Bolsonaro "fez a carreira em defesa da ditadura, da tortura", "sempre teve um discurso autoritário" enquanto o PT "de vez em quando fala uma palavra aqui e outra ali (...) mas na verdade é um partido que nasceu e cresceu na democracia, sempre jogou o jogo democrático".

 

pr/js/mvv/ll/cb