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País - Eleições 2018

Hora do tudo ou nada: candidatos à Presidência traçam estratégias após empate técnico em pesquisa da CNT

Jornal do Brasil EDLA LULA, edla.lula@jb.com.br

Esta semana será decisiva para os candidatos à Presidência da República. Restam apenas dois programas de rádio e TV a serem exibidos – um amanhã e outro na quinta-feira, último dia previsto na legislação eleitoral. O resultado da pesquisa de intenções de voto CNT/MDA, divulgada ontem, consolida os candidatos Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL) seguindo para segundo, cada um, porém, com percentual baixo de aprovação e alta rejeição.

Segundo a pesquisa CNT/MDA Jair Bolsonaro (PSL) alcançou 28,2% do eleitorado, enquanto Haddad ficou com 25,2%, com empate técnico cinfigurado devido à margem de erro de 2,2 pontos percentuais da pesquisa. Caso o resultado se comprove, será a primeira vez que candidatos entram na segunda etapa de um pleito com menos de 30% das intenções de voto, tendo que praticamente dobrar seu contingente de eleitores para se sagrar vencedor.

Pelo levantamento, realizado com 2.002 pessoas, nos dias 27 e 28 de setembro – antes das manifestações ocorridas no fim de semana –, no terceiro lugar estão empatados tecnicamente os candidatos Ciro Gomes (PDT), com 9,4%; e Geraldo Alckmin (PSDB), com 7,3%. Na avaliação de cientistas políticos, dificilmente um dos dois conseguirá chegar à segunda colocação.

Ainda assim, a amostragem não tranquiliza nem o candidato Haddad nem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, da cela da Polícia Federal de Curitiba, onde se encontra preso, dirigiu à militância petista uma carta na qual apela para que votem em Haddad como se fosse nele próprio. “Fui proibido arbitrariamente de disputar essa eleição, como era desejo da maioria. Mas se a injustiça fechou a porta da minha candidatura, o povo está abrindo outra, que é a candidatura do companheiro Fernando Haddad. Ele me representa nesta eleição e, tenho certeza, vai cuidar da nossa gente com carinho, como eu sempre cuidei”, diz Lula em um trecho da carta, para em seguida fazer o apelo: “peço a vocês que lutem muito pela eleição do Haddad. Saiam de casa todos os dias para fazer campanha e pedir votos para ele. Façam por ele como se fosse por mim”.

Em discurso ontem, Haddad fez o mesmo apelo, sugerindo que o eleitor o ajude a ultrapassar o ex-capitão nas urnas. “Queria fazer um agradecimento e um apelo aos nossos voluntários e militantes. Nessa reta final, vamos dar um gás bacana e chegar em primeiro no segundo turno”, disse Haddad, que se encontra hoje com Lula para discutir novas estratégias.

Sem alternativas, Alckmin prossegue com a estratégia de insistir no bordão que tem usado ultimamente – se votar no Bolsonaro para derrotar o Haddad, o PT volta ao poder. “Está claro que o Brasil não quer a volta do PT. Já tivemos a volta do PT e deu no que deu”.

O tucano diz acreditar que vai conseguir ultrapassar Ciro e, ainda por cima, chegar ao segundo turno. “Essa é a semana decisiva para a questão do voto e nós estamos trabalhando para chegar ao segundo turno”, disse o candidato a jornalistas após evento em Grajaú (SP).

Ao comentar os protestos realizados no fim de semana, pró e contra Bolsonaro, Alckmin voltou a usar a estratégia de desconstruir o ex-capitão. “A sociedade brasileira não aceita intolerância e violência”, disse em referência à manifestação do “#EleNão”, que ganhou as ruas do Brasil e do mundo no último sábado, contra a eleição do Bolsonaro.

Além disso, Alckmin levantou suspeita sobre o risco que corre a democracia brasileira. “Não é possível o candidato dizer que só se ele ganhar aceita o resultado da eleição. Só se ganhar aceita o voto do povo”, disse em referência à recente entrevista na qual o candidato questionou a segurança da urna eletrônica.

Ciro Gomes, por sua vez, fará o seu périplo, nesta última semana de campanha, por onde o PT não tem presença tão forte, em cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, segundo informou o presidente do PDT e coordenador da campanha, Carlos Lupi. Hoje, o candidato participará de caminhada em Suzano (SP).

Ciro também criticou as declarações de Bolsonaro sobre a legitimidade das eleições, caso ele não saia vencedor. “Somando a fala de Bolsonaro com as declarações anteriores do vice, general Mourão, sobre a criação de uma nova Constituição, e ‘juntando lé com cré’ percebemos a iminência de um golpe”, declarou o pedetista.

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Especialistas: segundo turno está definido

A pesquisa da CNT/MDA divulgada ontem mostra a alta rejeição aos dois candidatos mais bem colados na corrida eleitoral. Jair Bolsonaro (PSL), líder nas intenções de votos, com 28,2%, aparece no levantamento com 55,7% de rejeição; e Fernando Haddad (PT), que tem 25,2% do eleitorado, é rejeitado por 37,1%. Os votos brancos e nulos somam 11,7%; e 8,3% dos entrevistados mostram-se indecisos.

Mesmo com a fragilidade dos dados relacionados aos dois presidenciáveis, a menos de uma semana das eleições, cientistas políticos não vislumbram um cenário com outros nomes no segundo turno. “As pesquisas, nesta reta final para o primeiro turno, refletem a intensa polarização do eleitorado. Não tem jeito: será assim até o fim do prélio”, avalia Paulo Kramer, da Universidade de Brasília (UnB).

Já o professor Benedito Tadeu Cesar, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), diz que poderá haver uma movimentação no espectro, mas não o suficiente para tirar um dos dois do segundo turno. “Acho que há uma grande possibilidade de o Haddad terminar o primeiro turno em primeiro lugar. Bolsonaro pode cair uns dois ou três pontos, em virtude do #EleNão. Assim, pode acontecer de um dos candidatos que estão embolados no terceiro lugar subir um pouco mais e encostar nele, mas penso que não haverá tempo para uma reação”, opina.

Tadeu diz, ainda, que entre os candidatos Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB), que disputam a terceira colocação, a maior ameaça vem do pedetista. “Entre Alckmin e Ciro, talvez Ciro tenha mais chance de subir do que Alckmin. Ele perde votos para Haddad, mas pode ganhar votos de Marina e de Alckmin e até de Bolsonaro”.

Para Kramer, não é possível dizer que a manifestação do #EleNão, encabeçada por mulheres contra Bolsonaro, tenha surtido efeito nas urnas. Hoje assistimos a uma dialética de mútua desconstrução entre as duas principais campanhas, algo que podemos testemunhar nas ruas e, sobretudo, nas redes sociais. Só um exemplo: no YouTube, nos vídeos de artistas do #EleNão, os “dislikes” superam os “likes” por amplíssima margem”, aponta.

Nos vídeos aos quais Kramer se refere, em que atrizes e cantoras desafiam umas as outras a participar da campanha contra Bolsonaro, o número de curtidas é de pouco mais de 3 mil pessoas, enquanto os que não curtiram ultrapassam 91 mil, em média.



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