Jornal do Brasil

País - Eleições 2018

Um Brasil dividido comparece às urnas para decidir o próximo presidente

Jornal do Brasil

Os brasileiros, mais divididos do que nunca, comparecerão às urnas no próximo domingo para o primeiro turno da eleição presidencial, com a possibilidade de levar ao poder um nostálgico da ditadura militar, menos de quatro décadas após o retorno da democracia.

O deputado federal Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército, 63 anos, lidera as pesquisas com 28% das intenções de voto. Sua proposta de flexibilizar o porte de armas e suas denúncias de corrupção encontram eco em uma população saturada pela crise, os escândalos e índices de criminalidade dignos de um país em guerra.

Em segundo lugar, com 22%, aparece Fernando Haddad, 55 anos, designado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em substituição ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o líder histórico da esquerda, que cumpre pena de 12 anos de prisão por corrupção.

Se o cenário for confirmado, Bolsonaro e Haddad disputarão o segundo turno no dia 28 de outubro.

A candidatura de Lula foi invalidada pela justiça eleitoral no início de setembro, mas Haddad recuperou rapidamente mais da metade do eleitorado do ex-presidente (2003-2010), que tinha 39% das intenções de voto nas pesquisas.

Sua campanha se baseia na ideia de que "Haddad é Lula" e recorda que durante a presidência de seu mentor 30 milhões de pessoas saíram da pobreza, graças aos programas sociais e ao bom momento da economia, dinamizada pelos altos preços dos produtos agrícolas.

Mas Haddad precisa lidar com a traumática recordação da queda de Dilma Rousseff (2011-2016) - que também foi candidata por escolha de Lula -, afastada pelo Congresso em um processo de impeachment motivado pela acusação de manipulação das contas públicas.

Também enfrenta a indignação provocada pelas revelações de propinas pagas por grandes empreiteiras a quase todos os partidos para obter contratos da Petrobras.

Bolsonaro consolidou sua liderança nas pesquisas depois de ter recebido uma facada durante um evento de campanha, no dia 6 de setembro. Mas o candidato de extrema-direita, do PSL, gera uma forte rejeição por suas declarações misóginas, homofóbicas e racistas, assim como por justificar a tortura durante o regime militar (1964-85).

As mulheres lideram a resistência ao seu avanço. No sábado, dezenas de milhares se mobilizaram em todo o país, aos gritos de "Ele não".

 

O apoio aos outros candidatos - como Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e Marina Silva - nunca decolou realmente ou derreteu nas últimas semanas entre os mais de 147 milhões de eleitores.

Desta maneira se perfila um confronto entre as duas candidaturas com maior apoio e, ao mesmo tempo, as mais criticadas: Bolsonaro, com índice de rejeição de 46%, e Haddad, que também 'herdou' de Lula uma rejeição de 32%.

"Talvez seja algo inédito na história do Brasil o processo de intolerância e de ódio que está atravessando a sociedade", afirma a historiadora Heloísa Starling, coautora do livro "Brasil: Uma Biografia".

"No momento do golpe de 64 havia muita disputa", mas os setores conservadores não esperavam que os militares se eternizassem no poder. E nos anos seguintes, "diversos grupos na sociedade se organizaram fora do espectro da luta armada para fazer uma transição para a democracia", completa.

Agora, porém, "o que se questiona é a democracia em si" e a descrença na política bloqueia a busca de consensos. "Fora da política não tem como construir a democracia, só se constrói tirania", adverte Starling.

E Bolsonaro avisou na sexta-feira, em uma entrevista: "Não aceito outro resultado que não seja minha eleição".

O ex-capitão tem um forte apoio entre os militares e entre pessoas de alta renda e com formação universitária, em um país que é, ao mesmo tempo, a nona maior economia mundial e a nona mais desigual, de acordo com o o índice Gini do Banco Mundial.

"Esta é uma sociedade de raiz escravista, uma sociedade hierárquica, uma sociedade que se sente ameaçada" por qualquer tentativa de distribuição de renda, explica Starling.

 

 

O presidente Michel Temer, o mais impopular do país desde o retorno da democracia, aprovou severos ajustes para tentar sanear as finanças públicas, após dois anos de recessão (2015 e 2016) e outros dois de frágil crescimento, que deixaram quase 13 milhões de desempregados.

Mas não conseguiu aprovar a reforma da Previdência, considerada essencial pelos mercados.

Bolsonaro, que admite ser leigo em Economia, confiou esta parte de seu programa a Paulo Guedes, um "Chicago Boy" que prega uma transição para um regime de aposentadorias por capitalização e um plano de privatizações para reduzir a dívida pública, atualmente em 77% do PIB.

O programa do PT considera possível equilibrar as contas "a partir do retorno do emprego" e de medidas fiscais.

Mas qualquer plano dependerá de um Congresso que, segundo os analistas, será similar ao desprestigiado Legislativo atual, dominado por políticos que negociam seu apoio em troca de cargos no primeiro escalão do Estado.

Um modelo que provocou os grandes escândalos da última década.

 



Recomendadas para você