Jornal do Brasil

País - Eleições 2018

Caserna vai às urnas: candidatos ou não, militares nunca estiveram tão presentes em uma eleição

Jornal do Brasil

Um capitão da reserva lidera as pesquisas para as eleições presidenciais, com um general como candidato a vice, o comandante do Exército emite opiniões políticas e os militares, distantes deste tipo de debate desde que deixaram o poder, em 1985, após 21 anos de ditadura, nunca estiveram tão presentes na cena política brasileira, a menos de um mês de eleições particularmente incertas.

A quantidade de candidatos com origem nas Forças Armadas, à Presidência e aos governos estaduais, quase duplicou em relação ao pleito anterior, passando de 13 para 25. Esta nova situação desafia um país que ainda carrega o estigma da ditadura militar (1965-1984). “Após a ditadura, os militares permaneceram muito tempo na defensiva, mas agora estão mais visíveis”, afirma Nelson Düring, diretor do site especializado Defesanet.

Jair Bolsonaro, favorito nas pesquisas para o primeiro turno, no dia 7 de outubro, com frequência manifesta sua simpatia pelos chamados “anos de chumbo” no Brasil. Não é uma coincidência que tenha escolhido como companheiro de chapa um general da reserva, Hamilton Mourão, outra figura polêmica, e que prometa designar seis generais para o futuro gabinete.

Há um ano, o general Mourão ocupou as manchetes dos jornais ao afirmar que se a situação política continuasse se degradando, o Exército seria obrigado a “impor uma solução”. Mourão deixou de comandar o Comando Militar do Sul (CMS) para entrar na linha de frente da campanha de Bolsonaro, e ainda mais depois de o candidato ser esfaqueado em Juiz de Fora.

O ataque a Bolsonaro levou o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, a entrar no debate eleitoral. Em entrevista ao jornal Estado de São Paulo, Villas Bôas avaliou que o clima de “intolerância generalizada” poderia, inclusive, “questionar a legitimidade do próximo governo”.

Críticas à ‘intromissão’ da ONU

O general qualificou ainda de “tentativa de intromissão” o fato de a Organização das Nações Unidas (ONU), por meio de seu Comitê de Direitos Humanos, ter decidido que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve ter respeitado seu direito de disputar as eleições, decisão que não foi acolhida nem pelo Supremo Tribunal Federal (STF), nem pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que se apegaram à Lei da Ficha Limpa para decretar a inelegebilidade do ex-presidente pelo fato de ele ter sido condenado em segunda instância, pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), no processo que ficou conhecido como o do triplex do Guarujá.

As declarações do comandante do Exército geraram reações. No editorial “Imprudência fardada”, a Folha de São Paulo advertiu, na terça-feira, que as “declarações confusas não contribuem para apaziguar” a situação.

Ciro Gomes, candidato do PDT à Presidência, que ocupa a segunda posição nas pesquisas, foi mais duro e declarou, em sabatina do jornal O Globo que se estivesse na presidência colocaria Villas Boas “em cana” pelas declarações. Ciro também não poupou Mourão, a quem classificou de “jumento de carga”

Para David Fleischer, professor de ciências políticas da Universidade de Brasília (UnB), “o comentário de Villas Bôas só ocorreu porque o comandante em chefe, que é o presidente (Michel) Temer, agora é um ‘pato manco’, está no fim de mandato, sem governabilidade”.

Sergio Praça, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que “existe um desgaste imenso do setor politico”. “Nos últimos 30 ou 40 anos, não lembro de uma crise de legitimidade de um sistema político tão imensa. Então é natural que alguns olhem para fora do sistema partidário normal em busca de novos representantes, e existe o discurso de que os militares são menos corruptos e que é preciso trazer ordem, paz e segurança...”.

Parte da população se mostra favorável a uma “intervenção militar”, mas Praça não acredita na possibilidade de um novo golpe de Estado. “Estamos muito distantes da situação de 1964. Hoje, os militares se envolvem na política por meios democráticos”. (AFP)



Recomendadas para você