Jornal do Brasil

País - Eleições 2018

Provável substituto de Lula, Fernando Haddad acredita na estratégia do PT para herdar votos

Jornal do Brasil OCTÁVIO COSTA; REBECA LETIERI; BERNARDO DE LA PEÑA

Aos 55 anos, o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, acadêmico, político e advogado, é o representante do projeto petista nas eleições de outubro. Registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como candidato a vice de Luiz Inácio Lula da Silva, Haddad afirmou que, durante a campanha eleitoral, pretende defender o legado dos governos petistas.

Com a possibilidade de assumir a cabeça da chapa, com Manuela D’Avila (PCdoB) como vice, Haddad acredita na estratégia petista para herdar os votos do ex-presidente. Lula, preso em Curitiba desde abril, lidera todas as pesquisas de intenções de voto na disputa ao Planalto.

“Sem dúvida que o legado dos nossos governos será lembrado. Um legado que todos reconhecem como um período excepcional da história do país”, disse Haddad ao JB. “A estratégia do PT se mantém basicamente inalterada desde janeiro. Considero que a nossa chance de vitória, em qualquer caso, passaria pela defesa incondicional da candidatura do presidente”.

 

Os dois recursos do PT sobre a decisão do TSE foram negados. Como o senhor está vendo a possibilidade de assumir a cabeça da chapa?

No dia 11 expira o prazo dado pelo TSE para que haja substituição da chapa. Eu sou, além de vice, advogado do presidente – para deixar claro que nós queremos que ele seja candidato, porque é o que o povo quer. Tem uma pesquisa da Vox Populi, à qual nós tivemos acesso, que dá vitória para Lula no primeiro turno. Com isso, nós entendemos que a defesa de Lula é a defesa da soberania popular. Então, por uma questão de coerência, nós vamos nos manter fiéis às nossas teses originais.

Digamos que chegue o prazo...

Amanhã pela manhã, nós, os advogados, vamos nos reunir com o presidente para tomar uma decisão. Teremos uma análise política e jurídica, junto aos dirigentes do partido e, por fim, teremos uma decisão com relação à chapa.

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Muitos dizem que o prazo para assumir a chapa está ficando curto.

Nós, desde o início dessa longa jornada, tomamos essa decisão. A estratégia do PT se mantém basicamente inalterada desde janeiro. Isso foi benéfico para o país, porque criou-se uma consciência do que está acontecendo muito maior do que se nós abdicássemos da defesa de Lula. Considero que a nossa chance de vitória, em qualquer caso, passaria pela defesa incondicional da candidatura do presidente. Não consigo ver, ainda que eu considere os riscos que você levanta, alternativa a essa estratégia tanto do ponto de vista moral, quanto político.

Na propaganda eleitoral, por exigência da Justiça, o senhor conduz o programa. Se assumir, vai dar este andamento a campanha?

Sem dúvida que o legado dos nossos três governos será lembrado. Um legado que todos reconhecem como um período excepcional da história do país. Nisso que estamos nos guiando nesse momento. Mudanças que foram feitas do ponto de vista formal se devem à decisão do TSE, em que Lula só pode aparecer como apoiador e não como candidato.

O senhor acredita que pode herdar os votos do ex-presidente?

Lula, o PT e o programa de governo compõem uma totalidade que vai ser muito bem recebida pela população, sobretudo diante do caos gerado por essa aliança PMDB e PSDB, que levou o país a este impasse institucional.

As pessoas já o identificam como candidato do PT e de Lula?

Tenho sido muito bem recebido por onde passo. Falo do Nordeste e do ABC paulista, que é uma região diferente do Nordeste. Sou recebido como uma pessoa que compunha a chapa de Lula e como seu advogado, porque também sou anunciado dessa maneira.

Há comentários sobre o senhor ter um perfil diferente do eleitorado do PT e de Lula. Acha que isso pode ser uma dificuldade?

Não saberia avaliar com esse grau de acuidade, sobretudo, porque a situação é muito inédita. O que nós estamos vivendo é tão inusitado, que é muito difícil a ciência política, sem um precedente, conseguir fazer cálculos probabilísticos tão precisos.

O fato de o senhor ter sido derrotado em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, por João Doria, poderia pesar na eleição deste ano?

O ano de 2016 está distante no tempo. O tempo histórico não é tão cronológico. Às vezes ele se acelera e às vezes custa a passar. No caso mencionado, ele se acelerou demais. É óbvio que o fracasso da gestão Doria em São Paulo faz os paulistanos repensarem 2016.

O que aconteceu com Lula, desde a condenação à negação do habeas corpus, contribuiu para o aumento das intenções de voto nele?

Há uma sensação de injustiça com relação ao presidente. As pessoas têm uma percepção clara de que há uma perseguição a um direito próprio do presidente que não se aplica a mais ninguém, só a ele.

Em uma vitória do PT haveria dificuldade de governar, principalmente no que diz respeito ao Congresso?

Não. Essa possibilidade de aposta no caos não seria a tendência dos eventuais derrotados nas eleições de 2018.

Poderia haver uma composição com o Centrão, o MDB, em nome da governabilidade?

Haverá uma composição em torno do plano de governo. Nosso plano é consistente, tira o país da atoleira econômica, fortalece as instituições de maneira que recoloca o país na ordem internacional. Acredito piamente que a consistência do nosso plano vai fazer diferença. Estou falando de um Brasil que já deu certo. E não de transformá-lo em um laboratório.

Como o senhor viu o atentado contra Jair Bolsonaro?

A violência manifestada é um retrato do conflito exarcebado de ideais e da intolerância que tomou conta do país. Não será assim que vamos superar nossos problemas. Mas sim com entendimento, democracia e tolerância.

Importa quem vai para o 2º turno?

Nossa propaganda eleitoral não fulaniza. Não falamos de pessoas, falamos de política, da situação econômica, do que aconteceu depois de 2014, da instabilidade que foi gerada por uma oposição irresponsável que não respeitou o resultado das urnas. O desrespeito às instituições nos trouxe até aqui. Temos que inverter o sinal.

Os dois governos de Lula foram exitosos, mas o segundo de Dilma Rousseff teve problemas na economia. Fala-se que o próximo governo também vai enfrentar uma situação difícil. O senhor está preparado para isso?

Dilma terminou o primeiro mandato com a menor taxa de dívida da história. E, ainda que tivesse que fazer ajustes no segundo mandato, é óbvio que a sabotagem que ela sofreu desde que foi reeleita pesou mais do que qualquer outro fator.

Como o senhor vê esse horizonte?

Temos fundamentos importantes para retomar a economia. Falta disposição política para quem está, hoje, no comando do país. Para nós, não faltará.

E em relação às reformas trabalhista e previdenciária?

O governo apresentou uma agenda que se exauriu. O nosso foco é uma reforma tributária que modifique a composição do fundo público em proveito dos mais pobres, de forma a ativar a economia por meio do consumo. E uma reforma bancária, que recoloque o Brasil num patamar de igualdade com as nações desenvolvidas. Nossas propostas não passam por esses cortes monstruosos e que não resolvem a questão fiscal. Nós temos um conjunto de medidas contra a crise, que são emergenciais, mas têm efeitos no médio e longo prazo.



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