Culpa e lição de Cabral

Um recente e estarrecedor depoimento que o ex-governador Sérgio Cabral prestou à Justiça, destinado a detalhar a coleção de crimes que cometeu contra a população do Rio de Janeiro, chama atenção para algo que pode parecer detalhe, mas constitui um crime à parte, monstruoso e imperdoável. Trata-se da prática de proposital desaproveitamento de muitas toneladas de remédios, inicialmente destinados a populações pobres, como forma de forçar a aquisição de novas remessas, com isso abrindo-se espaço para o pagamento de propinas.

O que autoriza considerar que foram numerosas, sem que possam ser calculadas com precisão, as pessoas mortas pela ausência dos medicamentos indispensáveis, que o governo preferiu condenar ao apodrecimento, para que com isso seus agentes se enriquecessem mais. Por maiores que fossem, como efetivamente ainda são, as razões para considerar abominável um governador desse tipo, não se supunha que ele chegasse a tal ponto, pois revela total incapacidade de respeitar as pessoas, e certamente milhares que lhe deram o voto. Portanto, soma-se a tudo o ingrediente da ingratidão.

Porém, como a alma humana, por mais empedernida que seja, sempre deixa nos seus caminhos uma utilidade qualquer, a confissão do ex-governador, além de apresentá-lo como exemplar figura de um governo repugnante, serve como advertência sobre os frequentes casos de produtos farmacêuticos e instrumentos hospitalares que se tornam vencidos e inaproveitados por este país a fora. Em geral a explicação de chefes e funcionários são erros de remessa, armazenamentos deficientes e material superado. Tal como se argumentava, aqui no Rio, no doloroso reinado de Cabral.

Pode ser que, em casos vários, explicações desse tipo sejam aceitáveis, o que não impede que muitos depósitos criminosos sejam adredemente mantidos, pelo tempo necessário, a fim de que o material se revele inadequado para o consumo dos enfermos. É a bandidagem cruel, arquitetada para enriquecer os já muito ricos. Se a advertência for aproveitada, para que muitos outros crimes do gênero não sejam cometidos, eis um ponto creditado ao ex-governador, embora insuficiente para reduzir a prisão perpétua a que está condenado; perpétua sim, pois as penas que lhe pesam aproximam-se dos duzentos anos; e é impossível admitir que tenha alguma virtude para se tornar a nova versão de Matusalém.

Em quantos lugares deste padecente Brasil outros Cabrais terão ideia para praticar tamanha infâmia? Quantos serão os estoques abandonados, até que novas compras sejam feitas, e com elas o festival de propinas e comissões suspeitas? Certamente é um mal que se disseminou, confiando na impunidade. Já se denunciou que em Minas, para citar um caso concreto, material para tratamento em hemodiálise apodrece num galpão, por incompetência ou conveniência; são coisas deferentes, mas que não deixam de ser criminosas. É preciso saber; e rapidamente, antes que o espantoso desabafo do ex-governador fluminense caia no esquecimento. A recomendação faz sentido, porque temos incrível facilidade para esquecer coisas que não devem ser esquecidas.

A suspeita sugere que, além dos casos já constados, o ministério da Saúde entre no circuito, certamente com apoio de agentes federais, e com eles esquadrinhar todos os estados, partindo-se da certeza que, de certo, o Rio de Janeiro não será a única vítima de criminosos desse nível. O concurso da Polícia Federal seria providencial, pois, com suas operações, vem reunindo experiência em lidar com bandidos camuflados no serviço público.