Ditadura, uma radiografia comum

Ao decidir apertar o cerco diplomático, numa tentativa de asfixiar o presidente Maduro, fazendo-o apear do poder, o Grupo de Lima, ontem reunido, pode ter dado um passo concreto para fazer sucumbir não apenas o homem, mas um velho e desgastado modelo de ditadura, que tem longa história na América Latina. O presidente venezuelano encarna esse perfil do ditador antigo, patrono do personalismo, cuja primeira preocupação é desempenhar o papel do grande pai, e, ao mesmo tempo cruel com os que recusam essa paternidade, invariavelmente contrariando princípios da carta democrática. Aos que ouviram o longo discurso do líder bolivariano, no sábado, foi fácil perceber que de seus poros exalava algo de Peron, Trurillo, Fidel e Vargas, que não dispensavam sua imagem exaltada, além dos pregões de defesa de desassistidos. O destemperado pronunciamento permitiu considerar que a Venezuela pode ser o último bastião desse modelo, que andou em cartaz na primeira metade do século passado, principalmente neste lado sul do continente.

Nos relatos referentes àquele modelo, em comparação com os anos seguintes, não seria justo incluir os ditadores brasileiros, porque estes, sendo todos generais, dispensavam popularidade, não gostavam de falar para prestar contas, além do singular capricho castrense de se fazerem suceder sempre por generais; não cabendo, portanto, entre suas maldades, serem acusados de se perpetuarem individualmente no poder O deputado Dario de Almeida Magalhães, que havia se entusiasmado com o golpe de 64, tornando-se depois um de seus principais críticos, dizia que, terminadas as férias da legalidade, os ditadores sentem dificuldade em sair de cena. Assim como ocorreu no Brasil, Maduro, segundo seus adversários, poderá enfrentar o mesmo pesadelo. Como sair pela porta da frente, sem vexame? Porque o poder absoluto, como a cocaína, viciou e criou dependência para o ditador e os dois mil generais e almirantes que o sustentam.

Sempre chega a hora de prestar contas à democracia. A verdadeira democracia. Não aquela que o presidente Ernesto Geisel, em uma das raras falas, tentando explicar o inexplicável, referiu-se ao quadro nacional como "a democracia possível", o que haveria de inspirar Millôr Fernandes a descobrir que democracia relativa é a ditadura absoluta.

O mal primeiro das ditaduras é não terem sensibilidade e desconfiômetro para saberem que se esgotam, apodrecem. No caso Maduro, seu estilo caiu no demodê, fora de moda, como velhas galochas; e. antes de tudo, mostrou-se desaparelhado para descer de seus bilhões de baris de petróleo e dar comida e pasta dentifrícia ao seu povo. Não deixar que as pessoas caiam nas ruas por falta de remédios comuns. O que impera nele, sem diferença se comparado a outro que o antecederam na invasão aos poderes, é a tirânica insubmissão às leis.

Detalhe interessante, também este sob os auspícios do Grupo de Lima, ao se promover um diagnóstico do momento venezuelano, deixa patente que a ditadura, como todas as outras no continente, vai sentindo desmoronar-se a base política. O presidente grita, gesticula, sua, dispara hostilidades aos contrários e celebra privilégios de poucos, como se eles se estendessem a todos. Pelo menos na América Latina tem sido assim. Os ditadores, que têm em Maduro sua mais recente versão, vão se desgastando, os acólitos aos pouco debandam, a arrogância vai dando lugar à tristeza, enquanto o isolamento continental enseja uma série de dificuldades. Forma-se um deserto humano ao redor, como em agosto de 54 sentiu Vargas. O enredo é o de sempre.