Amazônia vulnerável?

A troca de desconfianças mútuas entre o governo federal e círculos religiosos, a propósito de um sínodo que em outubro levará o Vaticano a debater problemas sociais e ambientais da Amazônia, é algo que tem tudo para prosseguir, desagradavelmente, a menos que os responsáveis pelos setores diretamente envolvidos revelem, sem contornos, o que realmente se pretende nessa discussão e seus limites e intenções político-estratégicos; o que envolve não apenas o Brasil, mas todos os demais países cobertos pela grande floresta. Contudo, até o momento, só o governo brasileiro reagiu, oficialmente, indicando que alguns pontos da pauta conduzem a suspeitar de "pressões globalistas", estas entendidas como atividades que propugnam pelo controle internacional dos bens amazônicos, em nome dos interesses de um mundo ecológica e desejavelmente preservado. A menos que tenham sido realizadas discretas consultas, o Brasil não cuidou de saber dos vizinhos se seus temores são iguais aos nossos. Se não o fez, terá agido bem se o fizer, porque o tema é de interesse de grande parte do continente, e não é conveniente que, nesse particular, as ações e reações se façam isoladas.

Entramos num campo em que suspeitas e protestos podem ser removidos pela salutar via da informação formal, protocolar, com trato transparente dos detalhes que prenunciam divergências. O gabinete brasileiro que cuida da defesa institucional manifesta suspeita em relação a alguns itens do próximo encontro sinodal, mas não os indica; com isso, fica a sociedade condenada a ignorar detalhes de algo que, supostamente, interfere na soberania nacional. De sua parte, as autoridades vaticanas, sabendo que incomodam, podiam prestar esclarecimentos objetivos e oferecer garantias de que não têm (se realmente não os tiver) quaisquer planos de ofender princípios de autonomia. Ora, se é conversando que se entende, informando-se é que se removem dúvidas.

São necessários esclarecimentos, depois de a assessoria do presidente Bolsonaro insinuar que a Amazônia, no seu todo ou apenas no território brasileiro, tornou-se alvo do projeto que cria uma faixa independente e internacional de preservação socioambiental. O pretexto seriam a floresta, os rios e os povos indígenas. Em Brasília, particularmente os assessores militares veem nisso uma intromissão estrangeira, e não estão dispostos a tolerar; como o presidente Eurico Dutra quis tolerar com a infame Hiléia Amazônica, assim denominada por Alexander Von Humboldt; ideia que o Congresso fez abortas, com golpe certeiro e irrecorrível.

Bem tratados os objetivos, tanto os promotores do evento religioso como o governo receoso poderão remover pontos que se apresentam duvidosos, como o poder de influência que o Vaticano estaria consentindo ao que se define como "clero progressista", simpático aos políticos de esquerda, às ONGs estrangeiras e à efetiva presença internacional na Amazônia. Invoca-se logo a responsabilidade laica do estado, o que é meia verdade, porque o atual governo aprecia ouvir e prestigiar segmentos evangélicos. Laicidade, em termos.

As dúvidas quanto às intenções religiosas, por se apoiarem em organizações antipáticas ao novo governo, não deixam de ser um tema sensível; e exatamente por isso deve ser tratado com cuidado e recíproco respeito: de um lado, o governo brasileiro, suspeitando de interferências externas; de outro lado, o direito de organismos internacionais de se preocuparem, sem ofensas, com um patrimônio natural, que, sendo do Brasil, faz bem ao mundo inteiro.