Votos bem diferentes

Em breve, sem maiores tardanças, as assessorias políticas do presidente e dos ministros definidos como pesos-pesados, esses que têm como influir decisivamente, perceberão que, obtido o apoio dos dirigentes das duas casas legislativas, terão dado um passo importante para fazer tramitar as matérias de reformas; mas saberão, igualmente, que as mesas da Câmara e do Senado podem muito, mas não podem tudo. Vai chegar o momento em que importará ganhar a simpatia e a promessa de apoio dos parlamentares, de per si.

A razão é fácil de compreender, porque eles têm de convencer e prestar contas ao eleitorado de seus respectivos estados, onde em muitos deles é apenas relativa, se não mesmo ausente, a influência pessoal do deputado Maia, que é do Rio, e do senador Alcolumbre, do Amapá, que acaba de despontar de um quase desconhecimento.

O que significa que, muito provavelmente, os ministros diretamente envolvidos nessas matérias terão de se dedicar a uma tarefa semelhante àquela dos antigos mascates, que saíam pelo mundo convencendo, um por um, a seus fregueses. Tipo de missão em que os ministros e seus gestores políticos terão de exercitar com paciência e persistência.

Observa-se, tal como se deu em outros casos complexos anteriores, que ao governo, chegada a hora de proposições pesadas e polêmicas como a Previdência e o pacote anticrime, vai se revelar indispensável o diálogo direto com as bases políticas que dispõem de força e prestígio para influir ou mesmo definir o voto dos congressistas. E, neste ponto, há um detalhe a considerar, quando a aprovação que se pretende não se baseia apenas em números eleitorais; tão recentes, mas com uma outra realidade política que as urnas também projetaram, até agora não suficientemente considerada.

Vale lembrar, para desapaixonada reflexão: uma cota dos milhões de votos ao candidato Jair Bolsonaro foi-lhe dada não por ele, mas por representar a negação do adversário, além de uma grande sede dos antipetistas em impor derrota ao partido de Lula. A prisão do líder do partido, processado por corrupção, não aplacou a ira dos adversários.

Cumprido o ardente desejo de derrotar o adverso, os que a esse objetivo confiaram seu voto não se consideram eleitores naturais de Bolsonaro; conseguido o que queriam, recolhem-se politicamente, animados agora em saber a quantos anos estarão acumuladas as penas de Lula ou quais serão os novos obstáculos que o PT terá de enfrentar.

Com alguma humildade, sem jamais menosprezar o passageiro interesse político do eleitorado que se abrigou na candidatura do PSL, a assessoria política deverá atentar para o detalhe; a não ser que considere agradável achar que todos os votos levados a Bolsonaro foram intérpretes de total acatamento às suas ideias e projetos.

O fato é concreto, embora amargo para os gabinetes do Palácio do Planalto, que certamente procurarão argumentos para destruí-lo. Mas, a verdade é que bastou que se proclamassem os resultados das urnas para que a verdade viesse à tona: havia e ainda há uma razoável diferença entre bolsonaristas convictos e antipetistas raivosos.

Se não se der conta do painel eleitoral que separa os votos do presidente eleito e expurga os que nele votaram, não por serem a favor, mas contra o adversário, o projeto político do governo pode sair acidentado, ao primeiro embate na tramitação parlamentar. Certamente que desagrada ao governo a dedução aritmética dos votos "eventuais" que recebeu, mas não pode deixar de considerá-los. É uma imposição da realidade.

 

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