Tempo de cobranças

Tem previsão de se tornar intensa a agenda dos ministérios, em particular o das Relações Exteriores, ainda neste primeiro trimestre, que é também o tempo que dura o novo governo, porque são numerosas as cobranças que instituições governamentais prometem trazer ao Brasil, relacionadas com questões diversas. Quase sempre são suspeitas potencialmente preocupantes para o prestígio do país junto a alguns dos principais centros civilizados.

Soube-se, em dias recentes, que entidades europeias que trabalham na defesa dos direitos da mulher, preocupam-se com os números alcançados pelos feminicídios que aqui ocorrem, ainda que uma legislação protecionista para a população feminina tenha progredido e avançado nos últimos meses. O que não impede que se deplore o fato de as agressões físicas que resultam em óbito terem acentuada preferência por mulheres negras ou, sendo de qualquer etnia, muito dependentes do homem para o seu sustento. Os relatórios indicam a barbárie de uma mulher ser agredida a cada dez minutos. A consciência internacional quer saber o que temos feito, objetivamente, para reverter esse quadro. O que podemos responder é que num universo de fome, desemprego e deseducação é a população feminina a primeira a padecer. O que não sabemos é quando venceremos essa tragédia.

No campo dos direitos da cidadania, além da justa cobrança que se faz em relação à mulher, a imagem brasileira sofre as consequências que pesam, indiscriminadamente, além dela, sobre toda a população, seja qual for o gênero. Porque cada vez ganham mais espaços na imprensa internacional esses confrontos entre quadrilhas, e delas com a polícia. A insistência com que se divulga o doloroso balanço do morticínio é, ainda que indiretamente, uma forma de as entidades internacionais pedirem reparos. Eis mais um dado para compor o elenco de interpelações que o mundo vem deixando bater em nossas praias.

Organismos de promoção dos direitos humanos têm outras questões a levantar, e querem explicações, como aqueles sediados nos países que importam minérios da Vale, e se condoem e se entristecem ao saber que para eles homens e mulheres trabalhavam sem proteção ambiental, e por isso morreram. Não é pouco o que comove o mundo com a tragédia de Brumadinho, além das visíveis possibilidades de que outras barragens se rompam. Do Papa à Rainha da Inglaterra, as celebridades pedem ao governo brasileiro que não permita que coisas assim se repitam. E sugerem que avancem para a realidade as promessas que recentemente o presidente Bolsonaro levou a Davos, insistindo na prioridade da preservação dos recursos ambientais.

Com os problemas internos da Venezuela nada temos a ver; e, se alguma iniciativa brasileira se deu foi no campo da solidariedade com populações famintas e fugitivas. Mas o que se percebe é certa tendência, sobretudo entre os europeus, de admitir que ao Brasil, o mais forte entre os vizinhos, é que cabem gestões mais incisivas. Tanto assim, ainda de acordo com essa visão, os demais países latinos preferem adotar conduta mais discreta, esperando que o Brasil faça algo, além de abrigar venezuelanos em Roraima. Talvez os europeus percebam que suas expectativas em relação a Brasília sejam as mesmas que temos em relação a Washington

Os desafios são muitos para o governo no campo das relações externas, mais agora quando se verá mergulhado num tempo de muitas cobranças; e sabendo que nem sempre temos explicações convincentes.

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