Ânimo para reformar

Dedicados, até agora, a cuidar de sua adaptação às novas atividades, além de nas primeiras horas serem obrigados a participar do embate entre os candidatos à presidência das duas casas do Congresso, os deputados e senadores não tiveram tempo para pesquisar, muito menos analisar, as reais tendências dos plenários em relação a matérias de maior expressão a serem submetidas à sua responsabilidade, como legisladores. Precisarão de mais algum tempo para poderem auscultar e avaliar uma escala que contemple os maiores projetos. Mesmo assim, desde já perceberão que, entre os de notoriedade, não poderá estar ausente a reforma política, cujo encaminhamento acaba de receber a garantia dos novos presidentes da Câmara e do Senado. O compromisso serviu para alimentar a expectativa de algum avanço, ainda que seja para atingir apenas determinados pontos.

Na ascensão do DEM ao comando do Congresso claro ficou presente o dedo da presidência da República, o que, por dedução, permite insinuar que dela poderão surgir iniciativas desse terreno, pois também o governo tem prometido patrocinar a revisão da estrutura político-partidária. Para os menos otimistas, é conveniente levar em conta os presságios de sempre, quando os dois poderes coincidem objetivos e desejos; porque, em geral, o consenso torna-se excelente instrumento para que as coisas sofram intermináveis adiamentos. Sobretudo na política, onde se aprende que, quando todos querem, é porque não querem o suficiente. É de se desejar que isso não se repita, porque reformar é preciso; e quanto mais se adia, mais a tarefa se mostra indispensável.

É possível que o Executivo decida empenhar-se em ajustar o modelo político-partidário, mesmo que distante da dimensão proposta e esperada pela vasta coleção de experiências colhidas. Mas, pontualmente, o que o governo e seus conselheiros pensam a respeito permanece na faixa da superficialidade. Em relação a Bolsonaro, resgatadas ideias por ele plantadas, ainda nos tempos da campanha eleitoral, o que se conhece é sua aversão ao voto facultativo, que se mostra questão liquidada, pois é possível que com ele concorde razoável número de parlamentares. Os de hoje, como os de sempre, alimentam-se pelo temor de que, extinta a obrigação, as urnas padecerão de terrível anemia nos próximos pleitos. A tal ponto, que ao presidente e ao Congresso nem aceitariam uma simples experiência, com duração marcada: facultar ao eleitor de quatro ou cinco das grandes capitais o direito de escolher entre votar ou não. Só para ver se o medo sobreviveria.

Esse item, como vários outros da discutida reforma, teria encaminhamento e destino mais seguro se viesse ungido pela bênção dos partidos, por estar neles, em tese, o natural anseio de promove mudanças e seguir as tendências da sociedade. Mas há trinta anos que reconhecem isso, verdadeiramente, como um dever; falam, mas não fazem, o que permite considerar que o discurso reformista é mais que uma negação; é uma hipocrisia.

Já se tem dito, com frequência, que os eleitos de outubro, tanto presidente e governadores, como deputados e senadores, carregam sobre os ombros o expresso desejo dos brasileiros, onde quer que eles estejam, de se dar novo rumo às coisas deste país, a começa pela política, onde não mais cabem os hábitos velhos e velhacos. Para que ela se exerça com base em princípios que engrandeçam a representação e a representatividade. Porque sem isso não poderemos chegar ao patamar das grandes nações.