Jornal do Brasil

País - Editorial

Fevereiro começa menos cruel

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Depois de um janeiro que não foi dos mais agradáveis para o governo, além de desgostos pessoais para Bolsonaro, fevereiro começou prometendo uma dose de bálsamo, que para ele já se fazia necessária. A vitória de seu esquema político na disputa da presidência da Câmara dos Deputados contribui para levá-lo a um pouco de tranquilidade quanto a alguns desafios imediatos. O alívio não dispensa certa prudência, e recomenda algum cuidado, porque os grupos parlamentares ainda não se ajustaram perfeitamente. Muitas das decisões que agora se tomam podem submeter-se a alterações, dependendo dos rumos dos ventos. As atitudes e decisões em horas iniciais nem sempre têm longa duração.

Mas a decisão de se conferir um terceiro mandado ao deputado Rodrigo Maia na presidência da Câmara leva a alguns pontos capazes de satisfazer às estratégias que o governo deve ter para conduzir suas mensagens no Legislativo. Imagina-se que as tenha já bem delineadas, decorridos três meses desde que o presidente venceu a eleição. Maia agora é tido, e confesso, como adepto de reformas substanciais, embora nesse sentido em favor delas suas gestões anteriores não tenham sido hercúleas. Mas, nesta quadra, os números que lhe deram a vitória, e não deixam dúvidas, bastariam para animá-lo na rota reformista, na qual, verdadeiramente, transitam questões que não podem mais esperar por avanços. Festejada sua vitória nos gabinetes oficiais, presume-se que o governo passará a jogar muitas fichas na sua capacidade de articulação; e com ela garantir o que Bolsonaro entende ser necessário e inadiável.

Certamente também terá sido do agrado do Palácio do Planalto saber que a presidência da Câmara está confiada ao DEM. Esse partido, quando os políticos e os homens do governo analisam a estrutura óssea e a capilaridade das veias por onde correm os métodos de atuar, seria o mais adequado para o diálogo simultâneo com as frentes de direita e de centro, cuja formação logo se conhecerá, muitas vezes até à revelia das siglas. Os demistas têm passagens para mostrar que intermedeiam razoavelmente. A eleição de sexta-feira sinalizou isso, quando à candidatura do deputado fluminense aderiram 21 partidos, que, prosseguindo juntos, poderão ganhar expressão decisória. Nem tudo o placar revelou. Pode mudar muito ao chegar o momento de novos embates; mas neste momento ele indica uma unidade inaugural, da qual os governistas, com toda certeza, pretenderão tirar longos proveitos.

A recondução do deputado Maia foge do figurino de setores diversos de uma sociedade que, desde o processo eleitoral de outubro passado, mostrou-se francamente favorável a mudanças, com a substituição de nomes que pareceram mergulhados num cansaço sistémico, incapazes de grandes transformações. Cabe-lhe, então, revelar, com atitudes a ações, mostrar que se adaptou aos sentimentos do eleitorado, sem esquecer que esse mesmo sentimento de inovação esteve manifesto nas urnas fluminenses, nas quais foi buscar fôlego para reeleger-se.

Nos períodos que se seguem à eleição e à posse de novo presidente, uma preocupação pertinentemente renovada é sua capacidade de manter proveitoso diálogo com os demais poderes, em nome do ideal triparte; em particular com o Legislativo, não só por causa da produção das leis, mas porque ali transitam as grandes questões políticas. É o que se deseja ver realizado e permanentemente aperfeiçoado na nova legislatura.