Balancete de janeiro?

Um mês na vida do governo não é tempo suficiente para se fazer cobrança; muito menos haveria de se prestar a comemorações, porque dele, o que se sabe, continua sendo o elenco de intenções, afora o ter sido empurrado contra a parede pelo imprevisto de uma tragédia, chegando à marca de uma centena de óbitos. O primeiro mês, hoje completado, também teve a perturbá-lo a necessidade de o presidente submeter-se à segunda cirurgia, o que tornou mais vulnerável a máquina administrativa. É de se esperar que fevereiro conduza a uma agenda positiva, como a antecipação de condutas, tão mais claras como enérgicas, para definir a política ambiental, que, como já se disse repetidas vezes, vem sendo cobrada não apenas pelos brasileiros, mas por todos os estrangeiros que sentem nossas fragilidades nesse campo.

Pode ser que daqui a pouco tenhamos o terceiro desdobramento do decreto presidencial que em janeiro liberou, para determinados casos, a posse de armas de fogo. As duas outras consequências são sabidas: o sensível aumento na produção do setor e a valorização recordista de suas ações em Bolsa. Neste ponto, será desastroso para o governo se ganharem dimensões temores amplamente revelados: o recrudescimento da violência, ao invés de reduzi-la, e um certo temor dos psiquiatras, temerosos de que uma arma de fogo à mão possa estimular os suicídios, que já são a terceira causa de mortes no país. A decisão de armar os cidadãos de bem, em nome de sua integridade pessoal e familiar, continua produzindo dúvidas quanto à eficácia pretendida. É esperar para ver.

Mas estas são conjecturas. Quando se avança na concretude dos problemas, o governo fica sabendo que eles jamais escasseiam; mas se ampliam na mesa do presidente. E já a partir desta manhã, na improvisação dos despacho em sala hospitalar, ele começa a cuidar de uma tarefa, geralmente entre as mais delicadas, cobradora impiedosa de exercícios de paciência. É a relação com o Legislativo, que há de ser minimamente proveitosa, sob pena de comprometer a tramitação de mensagens essenciais. Nessa seara o governo precisa de muitas luzes. Vale aproveitar a oportunidade: amanhã, segundo os cristãos, será o dia de pedir luzes, na festa das Candeias...

De fato, um mês é pouco ou quase nada, insuficiente para cobranças e avaliações, o que não dispensa o governante de remover certas dúvidas que ficaram de discursos iniciais, marcados por alguma precipitação. Desejáveis melhores esclarecimentos. Já para agora, por exemplo, necessário planejar o tom de equilíbrio nas relações com Estados Unidos e China, porque num primeiro momento pareceu que a convivência com um, decorreria de insatisfações com a outra parte. Também frente à política internacional pareceu intrincada e mal explicada aos paceiros árabes a decisão do Brasil de aprofundar relações com Israel. São questões que passaram por janeiro deixando um rastro de dúvidas ou explicações incompletas.

Ignorando a ditadura do tempo, setores não faltam para advogar cobranças imediatas ao governo. Querem que promova logo o balancete das coisas prometidas, como se tem ouvido de setores mais radicais, dispostos a acusar, rapidamente, de adesismo opiniões que deles divergem.

Que se tranquilizem os ansiosos, porque chegará o momento de exigir do presidente Bolsonaro que diga a que veio; o que fez e o que deixou de fazer. Cobrar muito agora, quando ainda se cuida de implantar a nova ordem, é dar ao presidente o direito de dizer que nem bem acabou de chegar.