O Brasil nos trilhos

Cem dias são o prazo que o governo acaba de impor aos seus ministérios para algumas iniciativas que promete alcançar, e, nesse sentido, garante que já começou a contagem regressiva. A expectativa desperta, além do que já oficialmente se expôs, para outras iniciativas que, mesmo não podendo ser cumpridas tão rapidamente, requerem pressa para seu planejamento; o caso, por exemplo, da fixação das linhas que a nova gestão pretende traçar para cuidar da ampliação da malha ferroviária, esse amplo e indispensável programa que o Brasil não pode continuar prorrogando. Na verdade, nem seria possível imaginar abandoná-lo, pois as vias férreas constituem uma entre as primeiras exigências do desenvolvimento econômico de um país com as largas dimensões que temos. Se Pedro II já haviam percebido isso, 180 anos atrás, parece inconcebível ignorá-lo nestes dias de Bolsonaro.

Nos quatro anos que o calendário reserva ao novo governo certamente não será possível realizar tudo que precisa ser feito para se colocar o Brasil nos trilhos, no sentido literal; mas para que se cumpra o que diz respeito aos trens, em uma primeira escala cabe executar o planejamento e a definição das fontes de recursos. Devem constituir preocupação imediata. Trata-se de meta altamente complexa, a começar pelo volume do investimento, que, não havendo como assumi-lo apenas com os recursos da União, é preciso começar a conversar com a iniciativa privada. O empresariado nacional nem estará sendo convocado a prestar gentileza ou mera solidariedade patriótica, pois a ferrovia lhe garantirá alto retorno, tratando-se de um modal que, sendo operacionalizado, reduzirá sensivelmente o custo do transporte. O primeiro setor a beneficiar-se com a chegada dos comboios é o agronegócio, particularmente onde estão os produtores de soja e milho.

Nossa malha ferroviária deve ser pretensiosa, para corresponder à capacidade produtiva, que há muito já denunciou que a dependência ao transporte rodoviário torna-se cada vez mais onerosa. Portanto, ousar mais é preciso, como sugerem especialistas que têm avaliado as muitas oportunidades que nos escapam por dependermos demais do modal asfáltico.

Há dois anseios, legítimos e de objetivos facilmente perceptíveis, sempre com as atenções voltadas para mercados tradicionais ou potencialmente emergentes. O primeiro é que temos de fazer nossos trens chegarem com maior facilidade a dois pontos estratégicos do Norte: Acre e Maranhão. O segundo objetivo seria abreviar o acesso ao Pacífico, o que só será possível pelo trem e com base a um amplo acerto de interesses com nossos vizinhos de língua castelhana. Em um futuro distante desta geração que está correndo em nossos dias, muito menos para a gestão Bolsonaro, a chegada ao Pacífico inevitavelmente estará na ordem do dia. Porque é navegando em suas águas que o produto brasileiro poderá atingir mercados orientais hoje distantes, por causa da via única do Atlântico. Nada para hoje ou amanhã, mas num futuro ainda de difícil previsão. É certo que só a eficiente malha ferroviária poderá nos aproximar de portos hoje inacessíveis, embora muito ricos e promissores.

O destino da longa caminhada é sempre um primeiro passo. O que vale lembrar, quando se espera que o governo, com tempo suficiente para planejar, dedique especial atenção aos projetos ferroviários, não só com os olhos voltados para a economia produtiva, mas pela virtude do trem em não agredir o meio ambiente. E, todo dia, o Brasil está sendo convocado a cuidar mais e melhor de sua natureza.