Tragédia e amnésia

Se possível fosse levar o país a um minucioso exame científico, que permitisse a identificação de suas enfermidades culturais, uma delas facilmente diagnosticada seria a amnésia coletiva, a imensa capacidade de esquecermos com incrível rapidez as tragédias que nos atormentam. Por elas sofremos momentânea e sinceramente, por causa delas protestamos e denunciamos, mas logo surgem as coisas do cotidiano para substituir os males passados. E porque o país tem esse jeito de ser, as tormentas e os desastres ambientais, por mais dolorosos que sejam, logo estão condenados ao ostracismo, a começar pelo descaso dos governantes da hora. Talvez valesse examinar esse distúrbio de memória, que afeta tanto as pessoas como o estado. Ora, é sabido que um país desmemoriado não rompe feitiços.

Brumadinho, pacata cidade do interior de Minas, foi condenada, no fim da semana, a se tornar cenário de novo acidente ambiental; muito mais grave, porque sepultou em lama dezenas de vidas. Pois, o Brasil entrou no domingo lamentando a tragédia, por si mesma, e também porque ela demonstrou, cabalmente, apesar das deslavadas desculpas de sempre, que as grandes obras não cuidam de dar suficientes garantias à vida humana de suas vizinhanças. Certamente, em breve, estará esquecida, para cumprir aquele enredo de sempre: o presidente sobrevoa a área afetada, dá ordens aos imediatos para assistir as vítimas, manda liberar o Fundo de Garantia das famílias enlutadas, o governador decreta estado de calamidade;

A empresa dona da barragem lamenta profundamente… A Justiça bloqueia os bens da Vale. Mas, doutor, para compensar as vidas perdidas, quanto vale a Vale? Se aos mortos nada resta além da vala comum e aos assassinos, daqui a pouco, o prêmio do esquecimento. Como sempre.

Em 1903, idêntico desastre ocorreu em Cataguases; em 2015 foi a vez de Mariana, e agora Brumadinho, sem que seja necessário citar casos de menor gravidade, que sempre acontecem. Qual a próxima barragem escalada para dar continuidade a essa longa história?, na qual o descaso do governo associa-se à irresponsabilidade de empresas mineradoras; e todos sob as bênçãos de uma justiça que, de tanto demorar, acaba desanimada com aquela infinidade de papéis e choques de interesses.

Ainda sob esse angustiante episódio, e como sempre se dá, logo será criada uma comissão para apurar o que todos já sabem, menos os diretores e os técnicos da empresa responsável. O capítulo final ficará com a Justiça, ela também concorrendo, como zelosa colaboradora, para o esquecimento. Levarão anos os tribunais, abarrotados de recursos, para absolver todos os culpados. A culpa fica sendo de quem morreu e de quem, sobrevivendo, perdeu tudo. Mas é uma novela com todo direito a reprise, pois outros rompimentos virão, mais vítimas e imensos prejuízos materiais. Por que alguém ousaria elaborar previsão tão sinistra? Ora, porque são os próprios órgãos governamentais que advertem e preveem os problemas. Veja-se que, sem sair de Minas, há hoje ali nada menos de 45 barragens consideradas distantes de adequada conservação. Constituem perigo latente.

Como nos casos anteriores, também sobrelevam as consequências, tanto imediatas como prolongadas, sobre a gestão hídrica, afetando diretamente a bacia do São Francisco, já por outras razões severamente agredida. Aquelas águas, antes de serem transformadas em lama, representavam um dos braços a alimentar o grande rio da integração nacional. A isto acrescentando-se os prejuízos das florestas, que na região reúnem 24% de reservas originais, pode-se ter uma ideia do que o Brasil acaba de perder em solo mineiro; uma pequena ideia, porque a real extensão do desastre é imensurável.