Wyllys sem mistérios

Se há algo com tudo para figurar, pelo menos no Brasil, entre as raridades, é a renúncia de um deputado em pleno exercício do mandato, contando-se nos dedos da mão os casos em que o titular optou por retirar-se de cena, a não ser por graves perturbações ou coações irresistíveis.

A observação vem em boa hora, com a decisão de Jean Wyllys, do PSOL fluminense, que acaba de renunciar, pretendendo retirar-se do país, alegando insegurança, tanto física como para o exercício do mandato.

Uma alegação que precisa ser considerada, porque é de tal forma grave, que não teria cabimento admitir o prolongado silêncio dos órgãos de segurança. Se um agente político, qualquer que seja sua filiação partidária, manifesta-se constrangido para o exercício da representação, é dever do governo tentar esclarecer os fatos relacionados com a atitude, principalmente de um parlamentar.

Há vários aspectos a considerar, para que o problema não acabe caindo no olvido. Em primeiro lugar, e antes de tudo, o deputado Wyllys deve tornar-se mais preciso, e dizer de onde exatamente partiram as ameaças que tanto o preocuparam, a ponto de interromper a carreira política. Tendo assim agido, é evidente que tem perfeita noção da origem dessa violência que contra ele seria praticada.

Porque, tratando-se de um mandato eletivo abreviado por temores à violência, o problema deixa de ser uma particularidade pessoal, para ser de interesse do público e das instituições. Portanto, não lhe seria permitido segredar, ainda que assim continuaria a correr riscos. Estaria ele, por convicções ideológicas, com a cabeça posta a prêmio? Sabe de coisas que autoridades preferem que não transpirem? Ou envolvido em crimes? Essas dúvidas têm de ser removidas.

Para que o episódio se torne ainda mais sensível, e não caia na vala comum das questões esquecidas, mas reclamando rigorosa apuração, o general Mourão, com a responsabilidade de vice-presidente da República, comentou que Wyllys sabe perfeitamente das confusões e complicações de que participou. Eis outro detalhe a ser considerado, porque se o deputado tem responsabilidades em delitos, como insinua o general, também isso precisa ser trazido ao conhecimento público; em especial dos eleitores que a ele confiaram o voto.

Fruto de coincidências ou não, quando o deputado se retira e o vice revela saber das complicações dele, vem o presidente Bolsonaro e engorda a lista de suspeitas, ao afirmar que existem sinais de que o Psol, partido do renunciante, esteve envolvido no atentado que sofreu em setembro do ano passado, quando fazia campanha em uma rua de Juiz de Fora.

Ora, essas peças somadas e justapostas, independentemente do grau de confiabilidade que se empreste às suas origens, são suficientes para que se cobre o empenho da polícia e do ministério da Justiça. E também da Câmara, onde o ex-deputado tinha assento, por força de um mandato. É preciso que se confira gravidade a esse fato, sem que se limite à convocação do suplente.

Havendo temperos e sabores políticos nesse imbrólio, aprofunda-se a necessidade de total esclarecimento, para que interesses superiores não se infiltrem para confundir as investigações. Temos um caso clássico de panos quentes nos mistérios políticos: em menos de um ano (agosto de 76 e maio de 77) acabou-se a vida de três lideranças civis destacadas: Juscelino, Goulart e Carlos Lacerda. O poder da não apuração é imenso.