O fim dos paradigmas

Depois de terem uma agitada temporada de discussões e ações sobre o perfil ideal do novo presidente, acabando por verem o eleitorado optar por uma guinada à direita, os partidos vão agora ser convocados a reexaminar seus métodos de persuasão dessa mesma sociedade, que dentro de dois anos será de novo chamada a se pronunciar nas urnas. É uma tarefa que caberá a eles sem distinções, porque, vitoriosos ou derrotados, saíram todos arranhados no embate das urnas; e não poderiam, machucados e sangrando, apoiar ou fazer oposição ao governo Bolsonaro e aos novos governadores. Ainda assim, não falta quem arrisque identificar exceção apenas para o PLS, partido do presidente eleito. Ocorre, contudo, que, como instituição partidária, ele nada pôde oferecer como proposta concreta, porque não a tem; ao contrário, recebe para se sentir contemplado, mais do que caberia exigir.

O ano que vai terminando teve como fato político de alta relevância, além da eleição de um presidente de tendências direitistas, a evidência da fragilização dos partidos, tanto os que o apoiaram como os que defendiam outras opções. Alguns, derrotadíssimos na disputa da sucessão de Temer, como o PT, não ficaram totalmente condenados ao relento, graças ao adjutório de novas bancadas expressivas ( pelo menos quantitativamente) no Congresso Nacional. Mas é preciso considerar que as cadeiras nas bancadas, faltando um ideário que as identifique, acabam se tornando um dado aritmético, longe de levar tranquilidade. Assim, poderão continuar com poucos ares as legendas que no futuro correrão o risco de novas e pesadas frustrações, se não tomarem coragem para se reciclar.

Mais grave que estar contra ou a favor do governo Bolsonaro, ocupando-se, nos próximos quatro anos de dizer “sim” ou “não”, os partidos têm de ir mais fundo, mesmo que nisso tenham de comprometer seus velhos jargões ideológicos. Horas passadas, o presidente nacional do PSDB, Marcus Pestana, reconheceu tal realidade, como premissa de novos paradigmas. De fato, o que, no mundo de hoje, é ser de direita, de centro ou de esquerda? Todas as suas propostas programáticas, principalmente as que nunca passaram de mero palavrório em estatuto vazio em papel branco, estão precipitadas num imenso vazio.

E o eleitorado começa a revelar pouca importância às bandeiras ditas ideológicas, fenômeno que se percebe, ano após ano, nas votações em cinco continentes. Seria o Brasil diferente? Convém aduzir, como observação a mais, que vem correndo pelo mundo um clamor que desacredita velhas arengas. São os tais paradigmas em xeque. Não se trata, portanto, de um desafio a pesar exclusividade sobre os partidos brasileiros, o que, aliás, autoriza a expectativa de que a atual geração terá tempo vivido suficiente para assistir a sensíveis e necessárias mudanças no modelo partidário.

Mesmo sendo adepto da direita, o presidente Bolsonaro não precisará abrir mão de suas convicções, nem mesmo de sua filiação partidária, para saber que na objetividade e no ritmo modernamente exigidos na administração pública a excessiva fidelidade a uma ideologia ou a uma sigla corrói e compromete o desempenho. Como também haverá de considerar, para seu bem e de toda a nação, que o mau governante é sempre refém da intolerância, tão ao gosto dos radicais, estejam eles onde estiverem, no centro, na esquerda ou na direita. Como confessou o dirigente tucano, que viu seu próprio partido soçobrar, aconteceu um tsunami varrendo velhos paradigmas.