Dúvida e progresso no G20

Ideal, na conclusão dos trabalhos do G20, que reuniu em Buenos Aires os principais estadistas do mundo, seria a pronta adesão dos Estados Unidos à reafirmação dos objetivos do Acordo de Paris, documento onde os governos se penitenciam das agressões ao clima e, mais uma vez, comprometem-se a encarar o problema. A gravidade dessa ausência é que boa parte das ofensas ao clima e ao meio ambiente pertence à indústria dos americanos do Norte. Ela pontifica com uma poderosa cota dos diversos tipos de poluição. Em nome daquele país, o presidente Trump deu adeus ao acordo, retirou-se do diálogo e reafirmou disposição de manter a produção industrial sob os padrões que considerar economicamente apropriados.

Não foi o desfecho apropriado, porque quando se trata de reduzir elementos e fatores poluentes, o que entra em jogo é o interesse de todos os povos que, direta ou indiretamente, pagam o preço de um clima visivelmente deteriorado nas últimas décadas; de forma que, bem entendido, o processo industrial poluente não se restringe ao país que o produz; é problema para o mundo. O que autoriza renovada preocupação. E esse sonho de elaborar metas para garantir vida mais saudável no futuro, se estão ausentes Estados Unidos e China, os que mais produzem e também poluem, caem por terras as esperanças, mesmo que, no sábado, de ambos tenham partido vagas e inconsistentes promessas de atentar para o problema. Na verdade, o que se disse é a repetição do que geralmente se diz em reuniões de cúpula.

Ficou em Buenos Aires, como detalhe, a indisposição dos demais governantes de exigir concretude nas posições de Trump. Bastariam se valer do argumento indestrutível de que no comprometimento das qualidades do clima sofrem todos, pecadores e inocentes; na maioria das vezes estes mais que aqueles.

No fim de semana, ao bater em retirada, o presidente americano permitiu que se suspeitasse do pouco interesse que o governo tem dedicado às tragédias ambientais de seu próprio pais, que matam e destroem com grande furor, como ainda agora de registrou na Califórnia, devastada por incêndios incontroláveis. Para não se falar de ciclones e enchentes, com que a natureza castiga as ofensas que ali recebe.

Como também não parece constituir preocupação a ele o risco de isolacionismo a que os Estados Unidos estariam ameaçados no futuro, como consequência do crescente ativismo de uma mentalidade ambientalista universal. Mas, quanto a isso, não apenas os americanos, mas também estaria desprestigiada a China, onde as pessoas já se veem condenadas a andar mascaradas, para não morrer aspirando ares altamente poluídos.

Tirante os lances de má vontade, conforta saber que a capital argentina foi sede da reafirmação da irreversibilidade do Acordo de Paris. Pelo menos, sobrevive a intenção de preservar um conjunto de dispositivos e objetivos a conferir melhor tratamento ao meio ambiente. O mundo, pela voz de outros entre seus principais líderes, reconhece que há um ideal comum a perseguir, e já se tem aí uma luz.

Se o salutar Acordo é aclamado como irreversível, não volta atrás nem vai morrer, fica a expectativa em relação ao que nesse campo pretenderá o novo governo brasileiro, não bastando relatórios nem sempre confirmados, algumas vezes suspeitos, de redução do desmatamento na Amazônia, para fazer agrado aos que a têm como o pulmão do mundo. Ao ameaçar uma primeira iniciativa, a equipe deixou preocupação, com a tentativa de subordinar a política ambientalista ao ministério da Agricultura. O meio ambiente vai muito além, e às vezes até conflita com métodos e aspirações das lideranças do agronegócio. Sem tirar o olho do Acordo de Paris, cada um no seu galho.