Jornal do Brasil

País - Editorial

A vitória da ruptura

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Um balanço analítico do que têm dito as lideranças políticas e dos movimentos sociais, depois de eleito o novo presidente da República, deixa exposto que falta muito para que se definam rumos que a realidade nacional passará a cobrar, a partir do primeiro dia de janeiro, não apenas ao governante, mas também aos que o contestam. O que se ouve, com frequência, é a repetição de palavras de ordem e condenações ao estilo de Bolsonaro, de seu pensar e de seu dizer; o que vai se revelar como de rigorosa insuficiência. Aos contestadores e aos vitoriosos lembra-se que é preciso que desçam do palanque e deixem de lado o repetitivo discurso de campanha (porque esta já mão existe mais), pois precisam partir para enfrentar a realidade, e seria muito perigoso ignorá-la. Mas que realidade é essa, fonte na qual compete a todos, adversários e apoiadores, buscar inspiração? O ponto de onde devemos partir, fato histórico do conhecimento de todos, é que o eleitorado brasileiro, gostemos ou não, provocou uma ruptura nos métodos políticos que vinham envelhecendo, e o fez com uma votação que não deixou margem para questionar o que se desejou e ficou expresso nas urnas. Queiramos ou não, o eleitorado virou as costas para experiências passadas, sem querer saber se para melhorar ou piorar. Ruptura; nada mais que ruptura.
Sendo aconselhável admitir esse grito das urnas, pareceria sem sentido insistir nos mesmos padrões de prática político-partidária, sem que neles se promovam mudanças substanciais. Para tanto, considere-se oportuno avaliar os terríveis danos sofridos pelo MDB, PSDB e PT, que por décadas traçaram os destinos do país, e chegam agora à situação melancólica dos afogados. Como aceitar ser possível ressurgir das cinzas, mantendo aqueles estilos e métodos de chegar ao povo? Seria como praticar o suicídio depois de ter morrido. Bom se todos os partidos optassem por uma refundação, repleta de novidades, com olhos para o futuro e costas voltadas para o passado.
Para aquelas organizações partidárias, ainda grogues e atordoadas, não é cabível contentar-se apenas com o prazer de bombardear o presidente, tachando-o de direitista intolerante ou de adepto da violência como resposta ao crime; e ficar nisso. Para contrariá-lo, no pleno exercício da franquia democrática, faz-se mister outro caminho que pareça adequado e mais conveniente.
Para melhorar ou piorar - o tempo dirá – é preciso aceitar, como algo inconteste, que o brasileiro e suas urnas condenaram ao passado o jeitão mandonista, negligente e omisso dos partidos e da maioria dos que, em seu nome, falavam. Esse modelo já vai ser substituído por Jair Bolsonaro, seus seguidores e porta-vozes. Não sendo proprietários da verdade, com reduzidas forças para os imensos problemas que terão pela frente, seguramente haverá momentos de tropeço. É aí que devem ser esperados e enfrentados com ideias atualizadas, criativas, não apenas requentadas ou crivadas de ódio e revanchismo. Se a política tem virtudes autocorretivas, nem por isso pode ceder ao ranço de discursos ultrapassados, cheirando a naftalina. Em tudo que o governo Bolsonaro fizer ou pretender restarão espaços para discussões, adaptações e críticas. Preparem-se os descontentes.
Interessante observar que a imperiosa necessidade de rever, criticar e ceder às realidades, pertence, igualmente, ao novo presidente, não apenas aos opositores. E já antecipou uma prova disso, ao garantir sobrevida ao Ministério do Trabalho, depois de considerá-lo primeiro alvo dos projetos de extinção.