Jornal do Brasil

País - Editorial

Os salvos da omissão

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O fenômeno é um velho conhecido do processo eleitoral. À medida em que as urnas vão se ajeitando em seus lugares, como se acenassem e convidassem, os índices do abstencionismo caem, cedem espaço para as preferências e definições, mesmo que tal não se opere nas proporções desejadas. Ideal é que fosse mínima a ausência dos eleitores, pois, como é sabido, quanto mais expressiva a participação maior autenticidade haverá de se conferir aos mandados seguintes. Vistos os pleitos que se feriram nas últimas décadas, as abstenções e os votos nulos ficaram, em média, abaixo de trinta por cento. Uma proporcionalidade ainda expressiva e indesejável; mas previsões recentes mostravam-se bem piores, verdadeiramente sinistras, quando a campanha dos candidatos dava os primeiros passos. Há indícios de que, na pior das hipóteses, ficaremos na média habitual, a ostentar um desafio ainda a ser enfrentado.
Considerado o resíduo ainda preocupante, um fator a gerá-lo é a incapacidade que até agora as lideranças têm revelado em vestir a política com roupagem mais adequada. Na verdade, o que fazem é trabalhar para torná-la objeto de indiferença, particularmente junto ao eleitorado jovem. Não foi outra a realidade revelada pelos tribunais, que há dias reconheceram um retraimento da ordem de 14% entre jovens a partir de dezesseis anos, que estão dispensando o direito de votar. Não lhes interessa um modelo de representação que se esgota no voto. Concedido-lhes o direito, aquelas mesmas lideranças descuidaram de organizar os partidos e reciclar seus discursos, de forma a se tornarem mais atraentes. Continuaram elaborando meios e métodos que não convencem; expulsaram a rapaziada.
Um ponto que pode se revelar positivo, dependendo de aferições finais, é que não prosperou, neste ano, a campanha raivosa que andou propondo o voto nulo como instrumento de contestação. Também aí a convocação expôs sinais de descrédito, e foi tomando o rumo do vazio. O voto anulado, ao contrário do que se desejou, na tentativa de sensibilizar as camadas menos informadas, não tem poder de anular uma eleição, que se realiza e proclama os resultados, seja qual for o volume dos votos válidos. Pretender a inutilização, só para ver o circo pegar fogo, é esforço desperdiçado. A queda das intenções a favor do nulo, como vêm indicando recentes pesquisas, autoriza prever o fracasso desse tipo de protesto.
Um acréscimo ao citado fenômeno, não menos importante, é que a natural depuração em fim de campanha, quando ainda não se revela quem sairá vitorioso, mas deixa claro os que vão ficando fora do páreo, leva a disputa para terrenos mais tensos, assume cores de certo radicalismo, ganha sabores plebiscitários ( no segundo turno, ser contra é quase tão decisivo como ser a favor); e nessa hora o voto nulo, antes destinado a inutilizar-se, pode se transformar, ganha vida e propósito; e o branco assume outras cores, longe de estar a serviço da neutralidade. Porque é difícil não adotar uma posição ante as lutas renhidas. Nesse sentido, provavelmente apenas nisso, a polarização conduza a um resultado benéfico, pois é atraente e contraria o marasmo.
As eleições se sucedem, umas após as outras, trazendo lições e luzes em sua bagagem. É preciso aprender com elas, em seu próprio benefício. Por exemplo, elas não são suficientes para construir todas as soluções, mas começam a indicar os caminhos. Os ausentes e os adeptos do inconformismo intolerante não tomam parte na procura dos caminhos; preferem tatear, mesmo sem nada contribuir e nada aprender.



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