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País - Editorial

Velho sonho que fica

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Os mais recentes presidentes tiveram como ideal, jamais alcançado, por razões diversas, a elevação do Brasil ao quadro dos membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, o que, para alguns analistas que estudam a pretensão, esteve mais próximo de se obter nos dois mandatos de Fernando Henrique. Com prestígio junto a setores altamente influentes, pensou-se que havia chegado o momento, o que, afinal, não se deu. Mas não se pode negar que um dos obstáculos está no perigo de o Brasil, se fartamente prestigiado, provocar a ciumeira de outros latino-americanos, sempre preocupados em manter sob medida o prestígio brasileiro, de forma que não ocorra desiquilíbrio nas relações. O presidente Temer acaba de deixar em Nova York a reedição do sonho.
Mas verdade é que, como antes, depois dele o sonho continuará sendo acalentado, com base em articulações diplomáticas às vezes ostensivas, em outras com sutileza. Seria importante conquistar a sexta cadeira entre os permanentes. Lá estão os delegados dos Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China, que, integrantes daquele clube fechado, têm compromisso de solucionar seus impasses pela via do diálogo, como também são os cinco votos que ditam as regras para solucionar conflitos pelos quatro cantos do mundo. O que significa também ter o poder de decidir quando as guerras lhes interessam ou não.
Sempre desejou, o Brasil, tomar assento nesse círculo de poderosos, sem se contentar com o papel de membro não permanente, o que não deixa de ser honroso, mas sem expressão prática. Seja como for, o país já foi dez vezes reconduzido. Antes alguma coisa do que nada, já dizia um diplomata aposentado.
A ascensão pretendida, se algum dia alcançada, leva a algumas inevitáveis implicações; uma delas, as despesas com a manutenção do organismo, ônus que os cinco titulares certamente desejariam dividir com o recém-chegado. Para que se tenha ideia do volume, são os americanos que acabam arcando com a quinta parte dos dólares ali consumidos. Se algumas de nossas representações andam devendo até aluguel de carros, teria a chancelaria dólares suficientes para tomar parte nesse rateio?
Mas, oneroso ou não, tem havido concordância sob um aspecto fundamental, que ainda não foi capaz de sensibilizar os poderosos. É que ficam excluídos do Conselho Permanente, como titulares, representantes de nações da América do Sul, Ásia e África, exatamente onde ocorrem frequentes conflitos, os mais necessitados de paz, patrocinada pelos mais fortes. São aquelas, não apenas na linha de uma tese, mas verazmente, as regiões em que os bons préstimos do órgão poderiam atuar com iniciativas pacificadoras.
Mas este é um dado que certamente acaba sendo considerado pueril e romântico ante a complexidade dos outros fatores que antecedem e convivem com as crises, mesmo que não propriamente resultantes de conflitos armados a preocupar o desejado Conselho. Ainda há pouco, cumprindo a tradição de se dar ao Brasil o discurso de inauguração dos trabalhos anuais da ONU, o presidente Temer denunciou a tragédia humanitária da Venezuela, que gera uma insegurança naquele país, com tudo para lançar estilhaços sobre os vizinhos, ente os quais, e principalmente, nós. Mas essa é uma preocupação que a nada ele podia aspirar, além de um plenário distante dos poderes do restrito Conselho de Segurança. O assunto não morre. Vai continuar alimentando sonhos.



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