Jornal do Brasil

País - Editorial

Falta a voz dos partidos

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Sem poder buscar inspiração nesses partidos fragmentados ou improvisados, desolador panorama agravado com as conveniências do regime de 64, que logo optou pelo bipartidarismo, o eleitor se ressente, hoje, de um instrumento programático para orientá-lo no solene e soberano momento do voto. Aferiu-se, com facilidade, nas campanhas eleitorais; e a que se desenrola nestes nossos dias não constitui exceção. Não se ouve a voz dos partidos sobre o que deviam propor para o futuro do país, sem deixar tudo por conta dos candidatos que, em sua maioria, com eles guardam poucas identidades. Talvez esteja aí uma parte da explicação da insipidez dessa jornada, em que as siglas e suas letrinhas surgem como figurantes de secunda categoria. Formidável mutismo. Não é diferente o que se tem visto.
Desejável que os tempos políticos que se seguirão pudessem alterar esse quadro, do qual queixam-se os estudiosos da realidade nacional.
Sem legendas nitidamente identificadas, relevadas as exceções de praxe, o eleitorado caminha para contar apenas com a confiança pessoal que confere ao candidato, este com suas ideias projetos próprios, sem o embasamento e o aval da organização que há pouco o apresentou em festivas convenções. Com facilidade, o cidadão haverá de se perturbar ante a heterogeneidade das siglas embarcadas no mesmo navio, onde se acotovelam gentes estranhas, falando coisas diferentes na babel que a população não consegue entender. Até porque, no desenho das alianças, elas mesmas cuidam de se confundir quanto a prioridades de um eventual governo do qual fariam parte.
Nessa realidade confusa, navegam os votos conscientes, porque não devem ignorar que faltam, para defendê-los, os partidos patrocinadores dos candidatos que estão aí; não propriamente partidos (ainda que numerosos), mas grupos e correntes, que saem do limbo para ganhar o céu atrelados a projetos pessoais ou jejunos de conteúdo doutrinário. Sendo instituições amorfas ou semelhantes a certos seres, que somem sob a terra e só reaparecem para comer, explica-se a morosidade com que caminhamos para aperfeiçoar a democracia praticada no Brasil.
Longe de ser uma queixa vagamente lamurienta, a ausência da autenticidade reclamada na base do exercício político realmente compromete. Interessante, ainda falando sobre os que chegam só na hora das eleições, exercem eles um fenômeno misterioso: corroem, mesmo estando ausentes. Prejudicam a democracia, dela estando distantes. Não espere, pois, o eleitor, que seu sufrágio seja suficiente para fortalecer a democracia, porque ela sempre dependerá daquilo que nos falta, isto é, uma organização partidária com claros contornos e miolo produtivo; que diga a que vem, antes e depois dos processos eleitorais, não apenas para tentar garantir vaga no comboio do governo que vai começar. Se votar com seriedade, sem rancores e sem apostar no naufrágio, o cidadão fará o máximo que pode.
Há um detalhe que precisa ser avaliado, quando houver disposição das lideranças, e partirem para mudar a cara dos partidos; mas, lamentavelmente, é missão custosa. Em outros momentos da civilização essas organizações começaram nos sentimentos da base social, que definia seus anseios e procurava localizá-los sob a legenda mais adequada. Não conosco; aqui, a grande maioria dos partidos veio por imposição, de cima para baixo, tomados a audiência e os interesses apenas junto a setores privilegiados. Um defeito de nascença que levará algum tempo para ser corrigido.



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